Técnica Individual - Artigo 26

2 – Das Estratégias e Táticas para a Técnica.

No artigo 25 apresentei um Método de Treinamento para Consolidação do Vínculo Bloqueio-Defesa. Em rápidas palavras, o Treinamento parte da Capacitação Técnica Individual para a Construção das Estratégias e Táticas Defensivas.

Ou seja, a Aprendizagem e o Aperfeiçoamento da execução dos fundamentos da técnica tendo em vista capacitar os jogadores para cumprirem atribuições estabelecidas na Estratégia e nas Tática do time.

Neste artigo sugiro Método, que em uma Primeira Parte, o Treinador elabora a Estratégia e Táticas Alternativas, de acordo com as capacidades técnicas de seus jogadores. Em uma Segunda Parte, trabalha o Aperfeiçoamento da Execução da Técnica de seus jogadores - de modo individualizado e específico - com vistas ao cumprimento de suas atribuições nas funções estabelecidas nas Estratégias e Táticas Alternativas.

O Treinamento é dividido em duas Partes, cada qual com um objetivo específico. Porém, absolutamente interligados.

Parte 1 - aperfeiçoamento da execução das atribuições dos jogadores no desempenho das funções do jogo.

Parte 2 - aperfeiçoamento da execução dos fundamentos da técnica requeridos ao desempenho das funções do jogo.

 

Parte 1 - Aperfeiçoamento da Execução das atribuições dos jogadores no desempenho das Funções da Estratégia e Táticas.

- Organização da Sessão do Treinamento

O Treinador divide as duplas.

A Dupla em Treinamento (DT) executa as seguintes funções do jogo:

- Saque;
- Bloqueio;
- Defesa;
- Contra-Ataque.

A Dupla Oponente (DO):

- Recepção;
- Levantamento;
- Ataque;
- Cobertura do Ataque.

 

- Divisão da Sessão do Treinamento em Módulos.

A Sessão do Treinamento é dividida em Módulos. Em cada qual, Sequências. Estas, são iniciadas - sempre - com os saques desferidos, consecutivamente, por um dos jogadores da Dupla em Treinamento (DT); os dois se revezam, ora saca um ora saca o outro.


O Treinador estabelece um número de saques de cada Módulo – de seis a oito - para cada um dos dois jogadores. Resumindo, o Módulo é composto por 12 ou 16 sequências.

Nota

Os tipos de saque e os pontos da quadra que os jogadores devem visar, são estabelecidos pelo Treinador, em cada Módulo. Portanto é também um treinamento para aperfeiçoar Saque.

 

A Dupla Oponente (DO) realiza, exclusivamente, a recepção, o levantamento, e o ataque. No ataque, a cada módulo um tipo de bola e com diferentes tipos de golpes.

Exemplo no quadro a seguir.

 

 

Tipos de Bola

Tipos de Golpe

Alta nas Extremidades da Rede, com trajetória mais alongada e/ou intencionalmente mais curta.

Cortada com Potência Máxima
Cortada com Meia-Batida
“Lob” (*)
“Cut” (*)
Soco (*)

Bola Perto (*), de acordo com o posicionamento do Jogador-Atacante (JA).

Cortada com Potência Máxima
Cortada com Meia-Batida
“Lob”
“Cut”
Soco

Bola Alta/Meia Bola por Trás

Cortada com Potência Máxima
Cortada com Meia-Batida
“Lob”
“Cut”
Soco

Bola Chutada (*), nas Extremidades da Rede e/ou no Terço Central da Rede

Cortada com Potência Máxima
Cortada com Meia-Batida
“Lob”
“Cut”
Soco

 

 

- A Dupla em Treinamento (DT) se organiza defensivamente para:

1 – marcar o ponto por meio do Bloqueio;

2 – conquistar a posse da bola, pela defesa, e realizar o contra-ataque; a bola fica em jogo até que uma das duplas marque o ponto.

 

O treinador estabelece um tipo de saque e o alvo a ser buscado para os jogadores da DT, a cada módulo. Por exemplo:


1 – entre os dois jogadores, a trajetória mais rápida possível, desferido do terço central da Zona de Saque (ZS);

2 – entre os dois jogadores, passando alto pela rede e descaindo no terço final da quadra oposta, desferido do terço central da ZS;

3 – curto, entre os dois jogadores, desferido do terço central da ZN;

4 – de linha a linha, desferido das metades direita/esquerda da ZS;

5 – entre os dois jogadores, deferido das metades direita/esquerda da ZS.

 

Nota


O tipo do saque deve ser estabelecido pelo treinador. De modo geral, o que os jogadores habitualmente utilizam ou precisam passar a utilizar nos jogos.

 

Cada Sequência é iniciada com as duplas, DT e DO, realizando cada qual com uma atribuição.

Momento 1

Dupla em Treinamento.

Um dos jogadores da DT executa todos os saques do Módulo. Os dois jogadores combinam a estratégia Bloqueio-Ataque.

Caso consigam o ponto direto com o Bloqueio, inicia-se a sequência seguinte.

Caso consigam a posse da bola com a Defesa, realizam o contra-ataque e o jogo continua até que uma das duplas marque o ponto.

 

Nota

Apenas o ataque da primeira ação é pré-estabelecido. Na continuidade, ou seja, com a bola permanecendo em jogo os ataques são de acordo com a conveniência dos jogadores.

 

Dupla Oponente

Realiza a recepção, o levantamento e ataque (do tipo de bola pré-estabelecida pelo Treinador).

Caso marque o ponto, reinicia-se nova sequência.

Caso a DT conquiste a posse da bola, rearma-se imediatamente no seu Sistema Defensivo, Bloqueio-Defesa (Transição do Sistema Ofensivo para o Defensivo) e a bola permanece em jogo até que uma das duplas marque o ponto.

Ao final dos Módulos (seis ou oito saques por apenas um dos jogadores), o Treinador instrui a troca do jogador que executa os saques. A cada sequência nova troca e, dessa maneira, vão se alternando.

 

Nota

Quando a DT consegue a posse de bola com o toque no bloqueio ou com a defesa, realiza a Transição do Sistema Defensivo para o Ofensivo. No mesmo momento a DO realiza a Transição do Sistema Ofensivo para o Defensivo. A bola permanecendo em jogo, as Transições vão se sucedendo tantas vezes quantas forem necessárias; até que o ponto seja marcado.

 


 

Parte 2 - Aperfeiçoamento da Execução dos Fundamentos da Técnica requeridos ao desempenho das Funções da Estratégia e Táticas Alternativas.

Esta parte é realizada em outro Momento, em outra Sessão de Treinamento. Por exemplo. Na Seleções Brasileiras de Vôlei de Praia, categorias Sub 19 e Sub 21, a Parte 1 era realizada no turno manhã e parte 2 no turno tarde.

Os Treinadores optaram por essa divisão considerando que na parte da manhã os atletas estão mais descansados, com a cabeça mais aberta a receber informações e, por conseguinte, obter melhor aproveitamento com o treinamento.

Partindo do pressuposto que os atletas possuem boa capacidade técnica individual, o objetivo é apurar a execução dos fundamentos utilizados na Parte 1. Nesta, os jogadores as percebem as virtudes, o que fizeram bem, as dificuldades que encontraram para desempenhar suas funções. Portanto, o treinamento deve ser:

- individualizado, ou seja, cada jogador exercitará os fundamentos da técnica que sentem maior dificuldade;

- específico, ou seja, em cada função (saque, bloqueio e defesa) apenas os itens que encontram dificuldade.

 

Por exemplo:

- no Saque, se conseguiram ou não executar os saques e acertar alvos estabelecidos pelo Treinador;

- no Bloqueio, se conseguiu bom aproveitamento, encontrou dificuldade na marcação, no tempo, na velocidade da execução completa, etc.

- na Defesa, encontrou dificuldade no amortecimento, no domínio após deslocamentos, no controle em bolas altas/baixas em relação à linha da cintura, etc.

 

A seguir, um quadro com exemplos de itens a serem aperfeiçoados.

 

Saque

 

Tipo Ponto da Zona de Saque Trajetórias Alvos
Tênis Z1 - Z3 - rápida, rente a rede p1 - p5
  Z1 - Z3 - longa, alta sobre a rede p1 - p3 - p5
  Z1 - Z3 - curta, rente a rede p1'' - p3'' - p5''
       
Viagem Chapado (*) Z1 - Z2 - Z3 - rápida, rente a rede p1- p1' - p3 - p3'- p5 - p5'
    - longa, alta sobre a rede p1- p3 - p5
    - curta, rente a rede p1'' - p3'' - p5''
       
Viagem Potente (*) Z1 - Z2 - Z3 - rápida, rente a rede p1- p1' - p3 - p3'- p5 - p5'

 

(*) - Nomes popularizados no Vôlei Brasileiro

No diagrama a seguir, a Zona de Saque com três divisões, Z1, Z2 e Z3. E os Alvos a serem buscados com os Saques. A quadra está dividida em três terços no sentido transversal e três no longitudinal. As designações podem ser a critério de cada Treinador.

 

 

 

Bloqueio

 

Item do Bloqueio Itens a serem Trabalhados
Execução correta do Bloqueio - qualidade do salto
  - equilíbrio do corpo no ar
  - espaço do corpo em relação à rede, na subida e na queda
  - angulação dos braços em relação à rede
   
Tempo, Aspectos Relacionados - decisão do momento do salto
  - velocidade na execução completa
  - percepção dos movimentos do atacante adversário
  - movimentação dos braços de acordo com a trajetória da bola
   
Pontos de Referência para o Posicionamento - marcação no centro do corpo do atacante adversário
  - marcação à direita/à esquerda do corpo

 

Defesa

 

Item da Defesa Itens a serem Trabalhados
Execução Correta - para amortecimento da bola no corpo, à direita e à esquerda
  - para amortecimento após deslocamento curto, à direita, à esquerda, à frentre e atrás do corpo
  - para controle após deslocamento longo, nas bolas atacadas por meio de "Cuts" (*) e "Lobs" (*), nos terços inicial e final da quadra
  - para a defesas após as saídas do bloqueio ("Reco" (*)
   
Aspectos Táticos - amortecimento da bola direcionando-a à Zona de Levantamento convencionada
  - defesa de "Lobs", no terço final da quadra, com altura adequada para facilitar uma boa aproximação para o ataque
  - defesa de "Cuts" com altura adequada tendo em vista o recuo para o ponto em que habitualmente é iniciada a aproximação para o ataque

 

(*) - Nomes popularizados no Vôlei Brasileiro

 

Vantagens

1 - É apropriado a times compostos por jogadores com boa capacidade técnica individual, uma vez que é mais curto o tempo e esforço despendidos com treinamento da técnica.

2 - Os atletas trabalham, objetivamente, o necessário para se desincumbirem de suas atribuições.

3 - Desenvolve a auto responsabilidade. O atleta percebe suas virtudes e suas dificuldades no desempenho de suas atribuições. E as trabalha com maior consciência no treinamento técnico individual. E, consequentemente, o que precisa trabalhar para elevar seu nível de competitividade.

4 - Desenvolve o discernimento tático individual. Passa a saber os porquês de todas a ações que executa em um jogo.

 

Desvantagens

1 - Não é adequado a jogadores que não possuem capacidades física e técnica para desempenhar as funções estabelecidas em uma estratégia.

2 - Requer alta capacidade ao Treinador na elaboração do Planejamento e na apresentação dos Conteúdos.

3 - Requer, aos jogadores, autodisciplina e capacidade de concentração ao longo de toda a Sessão do Treinamento.

 

Conclusão.

O Vôlei de Praia tem evoluído muito desde que a modalidade um Desporto, ou seja, passou a ser disputada com as mesmas no mundo todo. Acredito que tem muito a evoluir.

Nos Campeonatos Mundiais das Categorias Sub 19 e Sub, tanto no masculino quando no feminino a evolução é flagrante. Nos últimos três anos participei com Supervisor Técnico das Seleções Brasileiras.

Fiquei impressionado, mas impressionado mesmo com o nível técnico desses campeonatos. Fiquei impressionado com o número de países que está participando.

Países da Europa e sua Subdivisões

Europa Nórdica

Dinamarca, Finlândia, Noruega e Suécia

Europa Central

Alemanha, Áustria, Bélgica, França, Holanda, Itália, Reino Unido e Suíça

Península Ibérica

Espanha e Portugal

Leste Europeu

Azerbaidjão, Caszaquistão, Belorússia, Georgia, Eslováquia, Hungria, Polônia, República Theca, Romênia, Rússia, e Ucrânia

Península das Balcãs

Bósnia-Herzegóvina, Bulgária, Croácia, Eslovênia, Grécia, e Turquia (parte europeia)

Países Bálticos

Estônia, Letônia e Lituânia

 

Países das Américas e Oceania

 

Norte Canadá, Estados Unidos, México.
Sul Brasil, Argentina, Peru e Venezuela.
Central Cuba e Porto Rico.
Países da Oceania Austrália e Nova Zelândia.

 

 

Como pode se observar, relacionei mais de quarenta países. Os países da África ainda não atingiram nível de competitividade sequer semelhante. Em conversas com treinadores de diversos países, tive a informação que muitos estão desenvolvendo trabalho nas divisões de base. Muitos dos quais, possuem políticas de saúde do povo, de educação e de esportes e estão desenvolvendo o vôlei de praia nas escolas.

Outro fato importante é, diria, o ressurgimento dos países do bloco socialista, tais como Rússia e oito países das ex-Repúblicas Soviéticas, Alemanha (Ocidental e Oriental unificadas), Polônia, Bulgária, República Tcheca, Eslováquia. Todos com influência das disciplinas científicas altamente desenvolvidas, sobretudo nas ex-Republicas Soviéticas e na Alemanha Oriental.

Em 20013 as comissões técnicas adotaram o Método focalizado no artigo 25. Ou seja, partiu-se da Capacitação Técnica Individual para a execução das Estratégias e Táticas, ofensiva e defensiva. Já em 2014, adotaram o Método apresentado neste artigo. Isto é, partiu-se da Construção das Estratégias e Tática adequadas ao confronto contra times de elevadas estaturas e, concomitantemente, o desenvolvimento das Capacidades Técnicas, de modo individualizado, requeridas à execução das atribuições estabelecidas para as suas execuções.

Resumo. Os objetivos foram alcançados. Nos anos 2012, 2013 e 2014, Brasil (com cinco títulos mundiais) e Polônia (com quatro) foram os maiores vencedores.

Brasil Sub 21, masculino, e Sub 19, feminino, em 2013, Sub 19, masculino, Sub 19, feminino, Jogos Olímpicos da Juventude, feminino, em 2014.

Polônia: Sub 19 e Sub 21, ambos no masculino, em 2012, Sub 21, feminino, em 2013, Sub 21, masculino, em 2014.

Na minha opinião, diante exposto, a tendência é de maior evolução ainda nos próximos anos. E a maneira pela qual pode haver evolução mais significativa e investir firmemente no Discernimento Estratégico e Tático que os jogadores devem ter para tomar decisões no decorrer de um longo; antes de a bola entrar em jogo, com ela em jogo, e quando ela "morre". O jogador deve saber os porquês que em cada ação, toda vez que toca na bola; quer nos treinamentos quer nos jogos.

Costumo simbolizar minha opinião com o seguinte raciocínio: é muito difícil em jogo sacar 30% acima da própria média; atacar 30% acima da própria média; bloquear 30% acima da própria média; mas é possível entender do jogo mais 30%, 40%.

 

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