Estratégias/Táticas - Artigo 33

- Objetivos com o Saque.

 

Como dito anteriormente, o saque tem como objetivos:

- marcação do ponto,

- a função tática.

 

- Saque com a Finalidade Tática.

 

É popularmente conhecido como Saque Tático. Os objetivos são o de dificultar ao máximo:

- a construção do sistema ofensivo, como um todo;

- a execução de determinada combinação de ataque;

- o rendimento de atacantes mais eficientes.


- Tipos de Saque mais utilizados com Finalidade Tática.

 

1. - Saque com Trajetória Alta no Fundo da Quadra.

Tem em vista obrigar os Jogadores-Receptores a uma recepção, direcionando a bola com trajetória mais alta e mais lenta para a Zona de Levantamento.


Muitas equipes, sobretudo as asiáticas, recepcionam de modo a imprimir uma trajetória retilínea e muito veloz à bola, de maneira a diminuir, ao máximo, o tempo entre a recepção e o ataque. O saque em que a bola passa alta sobre o bordo superior da rede dificulta e muito essa estratégia.


À guisa de ilustração, creio que vale reproduzir um fato muito interessante testemunhado por Victor Barcellos e Mário Dunlop, ex-jogadores da Seleção Brasileira, na década de 60, mais exatamente nos Jogos Olímpicos do México, em 1978.

A equipe masculina do Japão conquistou 3 medalhas olímpicas: foi bronze nos Jogos Olímpicos de 1964, em Tóquio; prata no México, em 1968, e finalmente alcançou a medalha de ouro em Munique, em 1972. Sua superioridade devia-se, entre outras tantas virtude, a uma característica marcante, que revolucionou o voleibol. Atacava por meio de combinações de ataque extremamente velozes.


E esta velocidade começava já na recepção do saque, executada dando à bola trajetória retilínea e extremamente veloz, como um arremesso para a Zona de Levantamento, reduzindo ao máximo o tempo entre a recepção e o ataque final. O levantador e os atacantes estavam preparados para construir o sistema de ataque com base nesta velocidade.

Todas as equipes do mundo tinham enorme dificuldade para neutralizar tão eficiente sistema. Inclusive as equipes do leste europeu, que dispunhas de jogadores altos e extremamente capacitados em bloqueio. Mas nem tudo é perfeito e inexpugnável...


A equipe japonesa vencia por 2 x 0 a ex-Thecoslováquia e caminhava célere para uma vitória por 3 x 0. O técnico da ex-Tchecoslováquia percebeu uma maneira de neutralizar esta velocidade japonesa e orientou sua equipe a sacar de modo tático. Todos os jogadores tchecos passaram a sacar com uma trajetória altíssima, quase um “Jornada nas Estrelas”; nomeado e popularizado pelo grande Bernard Razjman.

Com esse saque tático, a recepção japonesa não podia mais ser feita como habitualmente: trajetória retilínea e rápida. E, obviamente, as combinações de ataque, o ponto forte da equipe, não puderam mais ser realizadas com a velocidade característica. Como decorrência, facilitou e muito o bloqueio adversário.


A ex-Thecoslováquia, equipe com jogadores altos, passou a dominar o jogo por meio do bloqueio e virou a partida para 3 x 2. Jogo que entrou para a história do voleibol.

 

No diagrama a seguir, exemplos de trajetórias do saque entre a última linha da recepção e a linha do fundo da quadra.

 

 

 

2 - Saque Curto.

Tem em vista:

1 - Dificultar a execução das Bolas de Primeiro Tempo e, por conseguinte, as Combinações de Ataque.

2 - Dificultar a movimentação dos Atacantes da Linha de Ataque e/ou Atacante-Receptor.

3 - Quebrar a harmonia/ritmo da recepção de saque.

 

1 – Dificultar a Execução das Bolas de Primeiro Tempo e, por conseguinte, Combinações de Ataque.

Nos diagramas a seguir, o Saque Curto direcionado no terço central da zona de ataque da quadra oposta. Vamos usar a ordem de saque apresentada no diagrama menor:

Pos. 1 – L – levantador;

Pos. 2 – AR – atacante-receptor;

Pos. 3 – C3 – central-atacante de bolas de primeiro tempo;

Pos. 4 – OP – atacante oposto;

Pos. 5 – AR – atacante-receptor;

Pos. 6 – C6 – central-atacante de bolas de primeiro tempo.

No diag. 5, a disposição da equipe com três jogadores na recepção. Não participam da recepção L, C3 e OP.

No diag. 6, a disposição da equipe no momento do levantamento.

AR, da posição 2, posicionado para a recepção do saque, ataca a bola na saída da rede (pos. 2).

OP recua (seta tracejada em azul claro) para o ponto em que faz sua aproximação para o ataque na extremidade da rede (pos. 4).

C3 tem que recuar até o ponto em que, habitualmente, faz sua aproximação para o ataque da Primeira Bola, que no exemplo, podem ser uma de três: Cabeça na Frente; Cabeça Atrás e “Chutada” de Meio (setas tracejadas em vermelho).

O Saque curto visa, justamente, dificultar a movimentação de C3 e, consequentemente, a execução da Combinação de Ataque.

 

 

 

Vamos ver um exemplo de ação ofensiva bastante peculiar às equipes femininas. A equipe num rodízio em que L está na pos. 2, isto é, na linha de ataque.

A disposição para a recepção (diag. 7) é composta por três jogadoras:

AR, que está na pos. 1;

AR, da pos. 4;

C6, o bloqueador-atacante central da pos. 6.

Não participam OP, que está na pos. 5 e C3, que está na pos. 3.

No momento do levantamento, AR (da pos. 4) ataca na entrada da rede (pos. 4). OP ataca do fundo pela pos. 6 (seta tracejada em azul claro).
C3 recua para o ponto em que, habitualmente, faz sua aproximação final para o ataque. Parte para o ataque da China com 1 Pé na Saída da Rede (seta tracejada em vermelho).
Repare que o Saque Curto é direcionado para a Zona de Ataque, entre as pos. 3 e 2. Ou seja, no espaço em que o L se posiciona para o levantamento e que C3 utiliza na aproximação para o ataque da China.


Enfim, o objetivo do saque é justamente dificultar a movimentação de L e, sobretudo, a de C3.

 

Notas

De modo geral, o atacante da Bola de Primeiro Tempo evita recepcionar o saque. Justamente para não prejudicar sua movimentação. No caso, a mesma é realizada pelos jogadores da primeira linha da disposição da recepção do saque, ou seja, os dois Atacantes-Receptores (AR).

 

 

 

 

A fim de concluir esse item, vale mencionar que a bola de Primeiro Tempo é fundamental para a execução das Combinações de Ataque. Dificultando sua execução é meio caminho para neutralizá-las.

Tipos de Saque mais utilizados para essa Finalidade:

- Tênis;

- “Viagem” Chapado.

Em ambos é requerida grande precisão. Executado mais curto não passa pela rede. Mais longo, não contribui para o alcance do objetivo, além de facilitar a tarefa para sua recepção.

 

 

2 - Dificultar a movimentação dos Atacantes da Linha de Ataque e/ou Atacante-Receptor.

 

Além do atacante da Primeira Bola, num mesmo rodízio, a equipe pode ter mais um ou dois jogadores na linha de ataque (na rede). O Saque Curto na frente de um desses visa dificultar sua movimentação. Ou seja, ele tem que, passo a passo:


- adiantar-se a fim de executar a recepção;

- executar a recepção alçando a bola suficientemente alta, de maneira ter tempo de recuar para o ponto em que faz a aproximação final para o ataque;

- recuar ao ponto da quadra em que, habitualmente, faz a aproximação final para o ataque;

- fazer a aproximação final e executar o ataque.

 

Muitos jogadores conseguem fazer essa movimentação com grande desembaraço. Outros têm dificuldade e, muitas vezes, falham; quer na recepção quer no recuo insuficiente para o ponto da aproximação final quer na aproximação para o ataque. Como decorrência: não são acionados pelo levantador.


O objetivo com o Saque curto é o de provocar erros de algum desses atacantes. E, por conseguinte, inviabilizar o levantamento para o mesmo.

Nos diagramas a seguir, dois exemplos.

No diag. 9, a disposição para a recepção com três jogadores: o bloqueador-atacante central (C6) ou o Líbero; o Atacante-Receptor (AR) da pos. 1 e o Atacante-Receptor (AR) da pos. 4. (a ordem de saque está na quadrinha ao lado).

Repare na movimentação deste último, que está na linha de ataque (na rede). Desloca-se para o ponto da recepção, executa a mesma, recua até o ponto em que faz a aproximação para o ataque e parte para o ataque.


No diag. 10, a recepção com quatro jogadores. Dois dos quais estão na linha de ataque (na rede): o Atacante-Receptor (AR) da pos. 4 e o Oposto (OP), que na ordem de saque ocupa a pos. 3, mas está posicionado para a recepção na pos. 2. O saque curto pode buscar a frente de um ou de outro. Ao que couber a recepção, deve fazer toda movimentação representada pelas setas tracejadas.

 

 

Nota


Bloqueadores experientes observam atentamente a movimentação dos atacantes. Quando percebem alguma dificuldade de um dos quais, como as mencionadas, descartam o bloqueio no mesmo. No caso, ajudam no bloqueio dos demais.

 

 

3 - Quebrar a harmonia/ritmo da recepção de saque.

 

Existe uma peculiaridade marcante no voleibol; a harmonia/ritmo/desenvoltura que determinada equipe obtém na execução de determinada função. Por exemplo.

- Ataca sucessivamente com sucesso e não encontra dificuldade para marcar pontos.

- Sincroniza bloqueio-defesa e consegue pontos sucessivos.

Em ambos os casos, adquire autoconfiança que de modo geral, contribui para melhoria de rendimento. Ao mesmo tempo, consegue desestabilizar o equilíbrio emocional dos adversários, inclusive os levando a cometerem erros sucessivos.


Na Recepção do Saque ocorre circunstância semelhante. Os jogadores se acostumam com os saques da equipe adversária, ficam confiantes e alcançam índices formidáveis.
Uma opção tática interessante e que pode quebrar essa estado, é a de alternar tipos e trajetórias de saques. O Saque Curto se encaixa nessa alternância.


Desferidos esporadicamente e com expressão corporal semelhante à de outros saques, pode surpreender e ocasionar quebra do estado proporcionado pela mencionada harmonia/ritmo/desenvoltura e de saques.

Sobre esse aspecto, Yasutaka Matsudaira, extraordinário treinador da Seleção Japonesa de Voleibol Masculino, conquistou as Medalhas de Bronze (em Tóquio-1964), Prata (Munique-1968) e Ouro (México-1972), preconizava que uma equipe deve ter jogadores que executem saque diferentes. Um dos argumentos é justamente para não deixar a equipe adversária se acostumar com apenas um tipo de saque.

Aspecto da Maior Importância. Os Saques, tanto para Marcação de Pontos quanto para Objetivos Táticos, como os mencionado anteriormente, deve ter trajetória precisa. A fim de adquirir-se ou melhorar-se a precisão é preciso praticá-lo, sis-te-ma-ti-ca-men-te no treinamento técnico individual.
Em seção Técnica Individual > Saque, do Site, sugiro exercícios que contribuem para tal. Em alguns dos quais, chamo atenção para a importância de praticar saques observando-se alguns aspectos que auxiliam a melhorar a precisão. Por exemplo.

- Executando-os, sempre, dos mesmos pontos.

- Buscando determinados alvos.

- Tomando trechos da rede como ponto de referência.

 

Também menciono a importância do treinamento do Saque associado à Recepção. Contribui para o aperfeioamento recíproco. Existe um pensamento consagrado no meio do voleibol: a equipe que recepciona bem, quase sempre, tem bons sacadores.

 

 Continuação no artigo 34 com Estratégias / Táticas para neutralizar Combinações de Ataque

Home

Ir para Menu Vôlei de Quadra