Histórias dos Bastidores

Basquete e Vôlei - Jogos Escolares Brasileiros - Equipes concentradas em um mesmo quarto - Muita maluquice

Em 1977 foram realizados, em Brasília, os Jogos Estudantis Brasileiros, popularmente conhecidos por JEBs. Na ocasião os alunos atletas de todas as delegações ficavam hospedados em salas de aulas de colégios.

Numa dessas salas ficaram hospedadas as delegações do Basquetebol e do Voleibol. Cada qual em uma fileira de camas (beliche).

Pelo Basquetebol. Foto abaixo. Em pé: Afonso Dziedicz, Boletinha, Carlos Henrique Osterman (Carlão), Alemão, José Carlos Prata, Paulão Babalú e Chocolate, o Treinador.
Agachados: Luiz Felipe Reys, assistente técnico, Fabinho Bergman, Paulo Anibal Cruz Santos Nibinho, Marcos Beegu Mendes e Ado. Sartori, não sei, acho que não está na foto.

 

 

Pelo Voleibol: Bernardinho, Luiz Américo, Ney Pecegueiro do Amaral, Marco Aurélio Mota, Rui Campos do Nascimento, Rui Ludwing (Russo), Mosquito, Mauricio Collier da Rocha (Gauchinho) Carlos Augusto Almeida (Xiquita), Beto Gaglianone, Marcos Miranda, Naason Trindade. Eu, Jorge Barros, era o treinador. É pena que eu não tenha fotos.

Na sala de aula vivemos na maior anarquia ao longo de nossa estada nos JEBs. A seguir, contarei algumas histórias, no mínimo, pitorescas.

Competições dentro da sala de aula, Basquete x Vôlei

Salto em distância. Hora do início da competição: meia-noite; barulheira até altas horas. O salto era dado parado, com os dois pés paralelos; o impulso era dado só com os movimentos dos braços. Até eu participei, ainda que possa parecer inacreditável; na ocasião, com 28 anos, saltava bem... e não fiz feio. Não lembro quem ganhou. Lembro apenas que a competição durou cerca de duas horas. Houve eliminatórias, oitavas e quartas de final, semifinal e final. Todos, como não podia deixar de ser, saltavam muito.

Queda de Braço. Hora do início da competição: meia-noite; barulheira até altas horas. Alemão, do Basquete era um cavalo. Tinha uns dois metros de estatura e uns dois de largura. Foi passando o carro e um por um. Eu me candidatei. Coloquei meu braço. Deram o já. Fiz uma força descomunal. Resultado: Alemão me causou esgarçamento de parte das inserções dos músculos do antebraço. Nunca mais meu braço foi o mesmo, sinto até hoje. O único que derrotou Alemão foi Rui Ludwing (Russo), que também era descendente de alemão e também um cavalo. Há controvérsia. Beegu colocou no Facebook que Alemão, do Basquete vencera.

Guerra de frutas. Os coordenadores da delegação distribuíram frutas para todos os atletas. De maneira que à noite os atletas matassem a fome. Pra que?! Depois do toque de recolher, tarde da noite, os jogadores dos dois times faziam uma guerra de frutas, no escuro. Já imaginou? Todo mundo levava (não tinha escapatória) porrada de uma fruta; inclusive Chocolate e eu, os treinadores. Já imaginou a imundície que ficava o quarto? Parecia final de feira livre.
De manhã os atletas saiam para treinamentos e/ou jogos e o quarto continuava naquela imundície, muitas vezes um, dois dias. Pedi para que limpassem uma, duas, três, quatro, mil vezes e... nada. Não tive dúvida. Tranquei a porta da sala e esbravejei: "vamos limpar essa porra, agora; ninguém sai enquanto essa porra não estiver limpa, c#$*#ho". A rapaziada era muito legal. Entreolharam-se, viram que não tinham saída e deram a maior geral no quarto; ficou um brinco.

Algazarra à noite - 1.

Todas essas competições eram realizadas à noite. Os times já tinham jogado, jantado, etc., a hora era de dormir. Pois bem, algazarra era tal que os responsáveis pelas delegações de todas as modalidades reclamavam com o chefe da missão. Este vinha à sala e repreendia. A primeira, a segunda com toda paciência. Na continuidade, dava o maior esporro. A rapaziada se, calava e ia dormir.

Numa dessas houve um lance com Afonso. Era um pouco mal humorado demais da conta. Vivia dormindo, até de dia, apesar da barulheira. Alemão já tinha dormido. O chefe ascendeu a luzes para dar o esporro. Afonso acorda e sem saber quem estava ali e do que se tratava, muito irritado, sem sequer olhar para chefe (pensou que fosse um dos companheiros) esbravejou: "apaga essa porra dessa luz". O chefe perdeu o fôlego de tanta indignação e também esbravejando replicou: "eu não vou permitir essa algazarra aqui, os atletas das outras delegações estão dormindo e vocês fazendo essa barulhada toda; o primeiro que abrir a boca aqui mando de volta para o Rio de Janeiro". Todo mundo ficou caladinho, claro, em respeito. Afonso, meio que ainda dormindo, nem ligou para as palavras do chefe e, também esbravejando, largou: "manda para Rio, mas apaga essa porra dessa luz". Ninguém conseguiu se conter... foi uma gargalhada geral. O chefe apagou a luz saiu e todos imaginaram que ele mandaria Afonso de volta para Rio. Minutos depois voltou com o veredicto: "o senhor voltará para o Rio amanhã e no primeiro ônibus que sair de Brasília".
Foi um bafafá. Afonso era importante para o time. O treinador, os companheiros, do basquete e do vôlei, foram pedir ao chefe que revisse a punição. Argumentaram que ela estava dormindo e nem se deu conta de quem estava repreendendo todos. Convenceram Afonso a pedir desculpas, o que foi feito. O chefe aceitou e reformou a punição.

Algazarra à noite - 2.

Quando se podia imaginar que a lição fora aprendida, veio mais uma. Sartori, uma figuraça, tocava um instrumento chamado Escaleta. Era um instrumento de sopro que ele tirava as músicas dedilhando um teclado.
Estava na moda uma campanha de combate à sujeira nas cidades; o personagem da mesma se chamava SUGISMUNDO. E era veiculada com uma musiquinha. Tam-tam-tam ... tam-tam-tam ... tam-tarantantatam.
Chocolate, o treinador, teve um problema, que o impossibilitava de tomar banho. Teve uma farpa enfiada na coxa ao cair de barriga para baixo na quadra e deslizado pelo piso de madeira. Teve que ir para o hospital para tirar a farpa. Com o passar dos dias o cheiro foi ficando insuportável. Todo mundo percebia, mas como era o treinador, e era um cara muito legal, ninguém sacaneava... na frente. Sartori, com a Escaleta, ficava tocando a musiquinha (em homenagem) o tempo todo. A gargalhada era geral. Chocolate não estava nem aí. Pior para o Beegu, que dormia no beliche acima do Chocolate e toda noite e toda manhã, tinha que tirar e colocar a meia do pé dele porque ele não conseguia flexionar a perna. A gargalhada era geral, sempre que a musiquinha era tocada.
Numa noite dessas, o chefe veio e deu aquela bronca. Determinou: "tratem que acabar com essa barulheira, é hora de dormir, vou apagar a luz". Apagou, mas ficou dentro quarto, acho, que para flagrar alguém fazendo zona. Todo mundo percebeu. Sartori sacou a Escaleta e mandou, no escuro, a tal musiquinha. Foi a maior explosão de gargalhadas que presenciei em toda a minha vida; a turma não parava de rir. O chefe saiu do quarto sem dizer palavra. Eu cá com meus botões pensei: vai dar a maior merda. Não deu. A meu ver o chefe deu uma demonstração de resignação, superioridade. No caso, não houve falta de respeito a ele. Logo as gargalhadas cessaram, a turma dormiu e dia amanheceu feliz.

O time de basquete, depois de vencer a equipe de São Paulo na fase de classificação, perdeu na final por 83x77; foi um jogaço. Com vôlei ocorreu o contrário; perdeu para Sâo Paulo na classificatória e venceu a final (acho que por 3x0) e sagrou-se campeão.

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