Histórias dos Bastidores - 40

Mímica contra o “171”

Em viagens de um time, são absolutamente comuns “empréstimos” de dinheiro entre companheiros, por várias razões. Uma das mais frequentes é um grupo sair do hotel para fazer compras e um ou outro jogador não levar dinheiro, e querer comprar algo e não ter dinheiro suficiente. Quando se está em grupo, sempre aparece um companheiro para ajudar. E olha que às vezes a grana é forte! Na grande maioria das vezes, o empréstimo é pago no momento em que o grupo chega ao hotel. Bem, na grande maioria das vezes...

Em determinada seleção brasileira – omitirei o período e o nome dos jogadores – tinha um jogador que era useiro e vezeiro em pedir empréstimos, mas era manjado mau pagador, dava trambique geral: um verdadeiro "171". Era conhecido como "171". Os mais despachados, diante de um pedido de empréstimo, negavam na mesma hora e ainda mandavam “na lata” coisas como: tá maluco, sai fora, eu hein, etc... Os mais tímidos ou novatos na seleção, passavam por má situação quando eram solicitados a emprestar “algum”.

Certa ocasião estávamos em um shopping center e fomos contempladas com uma cena hilariante. Um estreante na seleção, extremamente tímido, daqueles que não sabem dizer não, foi abordado pelo "171".

- Ô meu, to a fim de comprar uns “lancezinhos”, mas esqueci a “grana” no hotel. Dá pra você me emprestar 300 dólares? Pago assim que chegarmos no hotel.

Como o pedido foi feito em voz relativamente alta, todos os companheiros pararam, meio que pasmos com a iminência do golpe. Um dos companheiros foi para trás do "171" e, consequentemente, ficou de frente para a possível vítima. Do seu ponto privilegiado, tentou advertir a vítima para que não emprestasse. Sem que o pedinte pudesse perceber, arregalou os olhos, levantou os dois braços e com os dedos em riste sinalizou nãããããooo, com bastante insistência.

A vítima virava a cabeça e olhava pelos ombros do pedinte, disfarçadamente, sem querer dar na vista que estava percebendo a mensagem. Encabuladíssimo, tentou sair fora:

- Pô meu, não sei se tenho 300, trouxe pouca “grana” pra essa viagem. Quer dizer... sei lá... de repente... sei lá meu... acho que não tenho... acho que não vai dar.

O mímico por trás, sorria, levantava os dois braços e exultante pulava de alegria, sinalizava aplauso e positivo com os dois polegares para cima.

O "171" insistiu:

- Meu, são só “trezentinhos” e, quando chegar no hotel, pago na mesma horinha. Pergunta a galera aí; pago na hora!

O mímico atrás encenou gargalhadas, coçando o tórax com as duas mãos, como querendo sinalizar não caia nessa conversa fiada.. O pedinte reforçou:

- Vai por mim meu; chegou no hotel, recebeu.

O mímico repetiu, com maior insistência, o gesto de nãããão. A vítima, continuou a manobra para negar:

- Pô meu, vou ver se tenho, mas acho que não tenho. Que tal você comprar esses “lancezinhos” amanhã?

O mímico, eufórico, aplaudiu. O pedinte continuou a pressão:

- Pode ser que amanhã não dê tempo. A gente vai ter jogo. Tem que ser hoje. Pô meu, quando chegar no hotel, é grana no bolso; pago na mesma hora, pode crer.

O mímico fez cara de horror, colocou as duas mãos espalmadas no rosto, balançou a cabeça para os lados, como que indicando: está liquidado. A vítima, constrangida, cedeu:

- Meu, vou emprestar, mas no hotel você paga; falou?

O mímico fingindo profunda tristeza friccionava os olhos com os dois dedos indicadores dobrados, como que enxugando as lágrimas.

A vítima contou lentamente os “trezentinhos” e deu ao mau pagador. Este, fingindo gratidão, abraçou fraternalmente a vítima.

O mímico colocou os dois cotovelos colados às laterais do tórax e, com as duas mãos, encenou o gesto de um passarinho voando, como que dizendo: sua “grana” voou.

Não é difícil imaginar o desfecho da comédia. Pois é, a grana voou mesmo. A vítima nunca mais viu sua cor! O mais difícil para a plateia foi conter as gargalhadas, sem que o "171" desconfiasse que fora personagem da maior comédia.

 

Voltar ao Menu Histórias de Bastidores

Home / Voltar