Histórias dos Bastidores - 37

 

Os "Solidários" nos treinos de Bloqueio.

 

Em 1981, a Preparação Física e o Bloqueio foram estabelecidos como prioridades nos Planejamentos das Seleções Brasileiras, Júnior e Adulta. Grupo de jogadores que veio a se tornar a famosa e notável Geração de Prata. Éramos inferiores em relação aos melhores equipes do mundo. Ou seja, acreditávamos que melhorando substancialmente nossos níveis nesses dois itens, poderíamos jogar de igual para igual com todas as seleções do mundo; o que de fato veio a ocorrer, já em 1981.

O treinador chefe, Bebeto de Freitas, incumbiu-me do treinamento do bloqueio. Time nenhum treinou tanto na história do voleibol! Foram registrados 101 treinamentos específicos na temporada, com duração média de três horas. O treinamento era brutal. A tal ponto que os jogadores não aguentavam mais me ver. Muitas vezes ouvi comentários jocosos como: "por que esse desgraçado não cai da moto (sempre fui motociclista) e falta pelo menos um dia?" Minha mãe ficou "popular"; nunca foi tão "mencionada". Como os jogadores eram levados a limites extremos, fazia "ouvido de mercador", obviamente a fim de não causar confusões. Um dos exercícios, por exemplo, consistia em executar nove bloqueios consecutivos, sem intervalo, no tempo estabelecido e sem qualquer erro. Quando não conseguiam realizá-lo perfeitamente tinham que repetí-lo... até conseguir.

Mas nem tudo era pressão, stress, etc. Faziam brincadeiras que, de alguma maneira, serviam para atenuar o rigor do treinamento. Protagonizavam-nas Willian, Montanaro, Amaury, Renan, Fernandão e Marcus Vinícius, os que tinham maior facilidade na execução de exercícios de bloqueio. Uma delas era a de "estimular" os companheiros a conseguirem realizar a dura tarefa, e a de "ajudar nas correções"; na da execução dos outros. Ficavam ao meu lado fazendo comentários. Coisas assim: os braços de fulano não estão muito fechados/abertos?; ele não tá saltando pouco?; ele não está olhando só a bola?; ele não está muito lento?; fulano só fez oito bloqueios, não são nove? Enfim, muitas e muitas sugestões de correções. Muitas vezes, desatento, não via os mencionados erros. Com os alertas, mandava fulano repetir. Os que repetiam ficavam muito putos. Os brincalhões, nas minhas costas, morriam de dar risadas.

A princípio cheguei a ficar tocado com tanta "solidariedade". Pensava comigo mesmo: isso é um grupo unido. Pouco a pouco fui me tocando. A intenção era a de aumentar o tempo de descanso. Quanto mais tempo qualquer um deles levava para cumprir a tarefa, mais tempo tinham para descansar. Depois, muito depois, percebi o papel de trouxa que fazia. Naquele grupo, o mais otário botava a linha na agulha com luvas de boxe!!! Na ocasião, foi a minha vez de ir para roda; argh!!!

 

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