Histórias dos Bastidores - 33

Ivan, o Terrível! - Parte 2

 

Terminamos o jantar e as jogadoras da seleção – na época Isabel, Roseli, Heloisa Roese, Regina Uchôa, Ana Richa, Ida, Adriana Samuel e outras – e eu sentamos em volta de Ivan para um bate-papo. Como sempre, eu começava com o assunto que mais me interessava: o comunismo. Não queria, de maneira alguam, brincar. Queria, sim, satisfazer curiosidades que tinha sobre a vida nos países comunistas. Entretanto, a atmosfera era sempre de brincadeira, “encarnação”, etc. As jogadoras esfregavam as mãos como se pensassem: vem alguma por aí.

Falando baixinho e querendo demonstrar receio e sigilo, perguntei:

- Seu Ivan, o que o senhor acha do comunismo?

Ele, muito malandro, sorriu – com ar de quem quisesse dizer lá vem mais uma desse idiota – olhou em volta para sentir a reação das meninas, passou os dedos pelo bigode ralinho e, com sotaque bem de português, começou a falar em voz baixa também.

- Oh seu Jorge... seria o mesmo que eu perguntar ao senhor o que o senhor acha do ar que respira.

- Como assim?

- O senhor pode escolher o ar que respira?

- Claro que não.

- Mas gosta.

- Ué, tenho que respirar; né?

- É a mesma coisa que digo, senhor Jorge. Tenho que viver aqui. Se o sistema é comunista, vivo no sistema comunista.

- Mas gosta?

- Como posso saber?

- Sabendo... ora essa!

- Então, senhor Jorge, responda-me: o senhor gosta do ar que respira? O senhor gosta de outro ar; pode colorir o ar que respira; pode torná-lo mais úmido; mais seco; mais leve; etc...?

- Claro que não!

- Eu também não posso mudar nada, senhor Jorge. Vivo aqui e ponto final. Acho que a pergunta do senhor foi respondida. O senhor quer fazer alguma outra?

Deu aquele sorriso maroto, coçou o bigode e olhou para as atletas com aquele ar de vencedor. Estas riram com a resposta. Olharam para mim e, certamente, pensaram: está se dando mal.

Insisti:

- Mas e a liberdade?

- Que liberdade?

- Que liberdade?! A que vocês não têm. O sistema comunista castra liberdades, como por exemplo, a de ir e vir.

- Está engando, senhor Jorge. Temos, sim senhor.

- Como têm?!

- Temos!

- Vocês podem sair do país a hora que quiserem?

- Podemos.

- Como! Todo mundo sabe que no sistema comunista ninguém pode sair do país.

- Está enganado, senhor Jorge. Podemos, sim.

- Como?

- Temos que fazer uma petição ao governo para que sejamos autorizados a sair.

- É fácil assim?

- É muito fácil.

- Então, por que não saem. Para viajar, fazer turismo, conhecer outros lugares, etc...?

- A petição é fácil. Só que o governo precisa colocar nessa petição 12 carimbos.

- E põem?

- Só 11.

- Só 11. E o décimo segundo?

- Nunca põem.

- Então vocês não podem sair.

- Com os 12 carimbos podemos.

- Mas... se eles não dão o décimo segundo carimbo... significa que vocês ... não podem sair ... ora essa!!!

- Sem o décimo segundo, não.

- Então, cara!

- Que podemos, podemos. O senhor não pode falar que não podemos, que não temos a liberdade de ir e vir. É só termos todos os carimbos.

Irritado, encerrei o papo:

- Pára Ivan. Que conversa é essa?! Parece conversa de bêbado!!!

Ivan sorriu, coçou o bigode novamente, olhou em volta com ar de quem tinha me feito de palhaço. Olhei em volta e percebi que as jogadoras, contendo os risos, também acharam. Resumo da ópera: levei uma boa e velha sacaneada.

 

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