Histórias dos Bastidores - 32

Ivan, o Terrível!

 

Nos campeonatos internacionais as comissões organizadoras designam um intérprete, guia, representante perante outras comissões, etc...; são os “attachées”. Recebem as equipes no aeroporto, trabalham incessantemente o campeonato todo e só deixam a equipe no aeroporto por ocasião do embarque de volta.

São verdadeiros heróis anônimos, pois têm, acima de tudo, descomunal paciência para lidar com irresponsabilidades, indisciplinas, vedetismos, nervosismos, gozações, enfim, uma série de incovenientes. Como recebem excelente treinamento para a função, acabam saindo-se bem. Sem eles, seria impossível realizar qualquer campeonato.

No Campeonato Mundial Feminino de 1986, na ex-Tchecoslováquia, fomos recebidos por um “atachée” meio estranho, de nome Ivan. Não foi nada simpático no nosso primeiro contacto. Deu boas vindas, ordenou que seguíssemos para o ônibus que estava à nossa espera, deu as costas e começou a andar para a saída do aeroporto. Era comum o “atachée” interessar-se pelas bagagens, saber se tínhamos feito boa viagem, se precisávamos de alguma coisa, etc... Com meus botões, pensei: esse tá liquidado.

No caminho, do aeroporto para o hotel, mostrou-nos – sem qualquer entusiasmo – as praças, monumentos e museus da linda capital Praga. Como sempre interessei-me pela história do país; fazia perguntas e mais perguntas a respeito de tudo o que ele mostrava. Ele, secamente, respondia-me monossilabicamente.

Logo após o jantar, falando português como falam os portugueses em Portugal, veio com as primeiras informações: reunião tal, a tal hora; treinamento tal hora; refeições tal, tal, e tal horas, etc... Logo depois sentamos no lobby do hotel e nós da delegação e ele começamos um bate-papo descontraido. Aproveitei para obter algumas informações úteis e satisfazer algumas curiosidades sobre o sistema político da ocasião; o socialismo.

- Qual é a moeda aqui da Tchecoslováquia?

- Coroas.

- Quanto vale?

- Um rublo soviético.

- E quanto vale o rublo soviético?

- Em relação a qual moeda?

- Ao dólar americano.

- Um rublo vale um dólar e, conseqüentemente, uma coroa, que vale um rublo, também vale um dólar.

- Que maravilha! Não sabia que a coroa era tão valorizada!

A realidade era que, no câmbio negro, um dólar valia mesmo aproximadamente 30 coroas. Ivan continuou enfático.

- Mas é.

- E o poder aquisitivo da coroa?

- Bem, o senhor pode comprar tudo o que deseja, sem problema algum. Se quiseres beber um bom uísque ou uma boa vodka, é só entrar numa loja e comprar.

- Tranqüilo assim?

- É... só que não encontrará.

- Por quê?

- Porque não tem.

- Mas por que não tem?

- Porque não entregam.

- Por que não entregam?

- Porque ninguém compra.

- Mas por que ninguém compra?

- Oh, senhor Jorge... porque não entregam!

- Não entendi.

- Simples seu Jorge. O senhor encontrará uma boa vodka nas lojas para turistas. Nós, tchecos, não podemos comprar em lojas de turista. É nossa lei. Logo, não compramos. Se não compramos, obviamente, não precisam entregar.

- Mas o senhor falou que poderíamos comprar tudo o que desejássemos, não foi?

- E pode. Só tem que esperar que entreguem. Quando entregarem, prepare umas 140 coroas e compre uma boa vodka russa ou polonesa... são muito boas.

- Cento e quarenta dólares por uma garrafa de vodka? Tá maluco!

- Não estou, é quanto vale. Por isso não compramos. O salário médio aqui são 35 coroas. Lembra que disse que uma coroa vale um dólar? Pois é, seu Jorge. Só vale aqui. Saiu daqui não vale nada. É nossa  lei. Dizem-nos essas coisas para dar-nos a impressão de que nossa moeda é tão forte como o dólar, que somos um povo que trabalha pelo sucesso do sistema e que nosso trabalho é recompensado a tal ponto que nossa moeda vale tanto quanto à dos capitalistas americanos. Mas, se o senhor quiser comprar, pode comprar!

Como em todos os países comunistas, os cidadãos não podiam e não deviam falar abertamente sobre o sistema. O Ivan era um especialista em evasivas, todas revestidas de sagaz ironia. Ele falava com um sorriso irônico o tempo todo.

No dia seguinte, chamei-o para um papo. Nas próximas estórias contarei a série de conversas, com o evasivo Ivan, sobre o socialismo.

 

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