Histórias/Bastidores 23

Conversando com Bené - Parte VI

 

No Campeonato Nacional Feminino de Voleibol, temporada 82/83, tínhamos jogos em sábados, domingos e feriados. No voleibol as equipes treinam nas vésperas e nos dias de jogos - é pratica comum.

No Fluminense, normalmente, tínhamos problemas com os horários para treinamento. Nos sábados e domingos, piorava. Os associados tinham prioridade para a utilização das quadras nestes dias. Por essa razão, precisei marcar um treinamento num domingo, às 07:00 h, isto é, antes do início das atividades dos sócios do clube.

Como é dia e horário incomum e desagradável, tentei minimizar a "bronca" com uma "brincadeirinha", ou seja, dei uma de "democrata", no momento em que comuniquei às atletas:

- Temos treinamento bem cedo amanhã (domingo). Olha pessoal, o horário é meio ruim ou por outra, muito ruim. Qual horário vocês preferem, 6:55, 7:00 ou 7:05 h?

As mulheres olharam-me com caras de "nenhum amigos". Mas como tínhamos necessidade do treinamento, conformaram-se. Dia seguinte, estavam todas lá. Cheguei ao clube e Bené já estava, esperando-me, com toda certeza. Ele não tinha necessidade de estar presente. Alguma coisa ocorrera. Estranhei, mas fui em sua direção para cumprimentá-lo.

- Seu Bebé, o senhor por aqui, à esta hora, que bons ventos o trazem?

- Meu amorrr... a que hora que essas mulheres vão "trepar"?

Surpreso, sem acreditar no que estava ouvindo, titubeei. Ele não deu uma pausa.

- Você acha que só o "escurinho" aqui é que "trepa"?

Ainda incrédulo com o que estava ouvindo, e mais, com o que estava ouvindo, e mais, de quem estava ouvindo - nunca imaginara que Bené se ligasse no assunto - devo ter feito cara de babaca. Ele continuou.

- Tá olhando o que?

Dei uma risada.

- Ta rindo de que?

- Seu Bené... é que nunca imaginei que o senhor se ligasse nessas coisas!

- Essas mulheres têm que "trepar"... e bem!!! Têm que fazer muita sacanagem. Elas gostam de uma boa sacanagem.

- Peraí, seu Bené.

Ele não dava trégua.

- Peraí merrrda nenhuma. Elas precisam de diversão, de ir a um cinema, a um teatro, sei lá... essas merrrdas. Esse negócio de treinar, treinar e treinar, ué... você estoura essas meninas. É melhor que elas estourem "trepando"... aí elas gooostam!!!

- Tem razão! Eu nem tinha me tocado!

- O que?!?... e como tenho!!! O voleibol é apenas uma parte da vida delas. Têm que estudar, trabalhar, e se divertir. Só treino, treino e treino... não há quem agüente!

- É verdade, seu Bené.

- É ué... pense nisso. A jogadora que faz todas as coisas boas da vida... rende muito mais!

- Valeu, seu Bené... valeu pelo toque.

Foi uma das grandes lições que aprendi com ele. De uma pessoa que eu nunca poderia imaginar, veio uma lição tão importante. Contribuições como essa, tive o privilégio de dispor na minha convivência com ele; um mestre, sobretudo, de vida.

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