Histórias/Bastidores 22

Vernáculo ajudando a Preparação Física.

 

Quem diria!!! Algum tempo atrás, tinha um programa humorístico na televisão - acho que do Jô Soares - que, quando alguém falava palavra desconhecida, seu interlocutor interrompia em voz alta:

- Pára a novela!

O cidadão, então, explicava o significado da mesma.

Na seleção - entre 1980 e 1984 - tínhamos o estimadíssimo Major Paulo Sérgio Rocha. Extraordinário preparador físico, que revolucionou o trabalho físico no voleibol brasileiro. Estudioso, metódico, carismático, contribuiu diretamente para que o Brasil alcançasse o lugar de destaque que desfruta atualmente. Dentre suas características mais marcantes, destaco a paciência de "Jó" e a maneira de falar. Explicava a tarefa a ser realizada em voz alta, pausada, enfim, com absoluta clareza. Utilizava-se - de maneira habitual - de palavras incomuns para qualquer mortal; incompreensíveis para os jogadores.

Começava qualquer atividade com explicação detalhada:

- Senhores, muito bom dia. A sessão de corrida hoje será a seguinte: vocês farão 4 séries de 4 voltas na pista e cada volta deve ser percorrida em 1 min. e 10 seg., ou seja, a toada deve ser contínua... De pronto, alguém interrompia:

- Pára a novela! Major, o que é toada?

Ele olhava fixamente e pacientemente explicava:

- To-a-da - era assim mesmo, dividindo as sílabas - é a mesma coisa que ritmo.

Continuava a explicação:

- Depois de cada série de 4 voltas, vocês terão um descanso de 2 min. Nestes interregnos, devem... Interrupção:

- Peraí! Major, que que é isso?

Ele, com uma certa irritação, não se furtou a explicar:

- In-ter-re-gno, é a mesma coisa que in-ter-valo, pau-sa.

E seguia com a explicação:

- Devem alongar bem a panturrilha - palavra incomum naquela época -... Outra interrupção:

- Pára a novela! Major, o que é pantu... o que mesmo, heim...?

- Pan-tur-ri-lha é o Tríceps Sural... Virou a cabeça para o lado, deu uma alisada no cabelo e balbuciou:

- Esses caras não vão entender... batata-da-perna! Com a voz empostada, advertiu:

- Ignorantes!!! Deixem-me acabar a explicação. Depois façam a pergunta que quiserem!!! Está en-ten-di-do?

- Ao final das 4 voltas, vocês me informarão a freqüência cardíaca... Pronto:

- Pára a novela! Major, que isso?

- Co-lo-quem o de-do na ju-gu-lar...

Alguém imediatamente:

- Que que é jugular?

Ele, já muito irritado:

- "Debilóides", deixem-me acabar pelo menos a frase! Coloquem o dedo na jugular, uma veia que tem aqui no pescoço e na qual sentirão o batimento cardíaco. Contarei 15 seg. Ao final dos 15 seg. dirão quantos batimentos vocês contaram. En-ten-di-do?

Alguém, com "cara de cachorro perdido", interrompeu:

- Major, a gente só está querendo entender! Já rindo, aproveitou a "deixa" para "desancar" a turma:

- Se vocês tivessem botado as nádegas - dificilmente falava palavrão - em um banco escolar, já teriam en-ten-di-do! Mas, como as vossas pro-ge-ni-to-ras não os colocaram na escola, eu é que estou me exaurindo!

- Quê?

Alguém perguntou com o grupo já às gargalhadas. Ele, percebendo e rindo com a palhaçada, deu a "chave-de-galão":

- Vara de vagabundos... vara não é de vagabundos, é de porcos... não faz a menor diferença... Porcos e vagabundos, vamos deixar de conversa fi-a-da e começar a correr!

A sessão de corrida começava com todos, sem exceção, às gargalhadas. O que tornava a preparação física - normalmente uma atividade odiada - um momento de grande diversão.

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