Histórias/Bastidores 20

Conversando com Bené - Parte V.

 

Achava Bené um cara muito esperto, um malandraço. Não "caía" em gozação alguma. Muito pelo contrário, saia-se sempre colocando o gozador em má situação, isto é: de gozador em gozado. Ficava pensando comigo de onde vinha aquela malandragem toda. Descobri num dia de nossas conversas.

Terminado um treinamento, Bené aproximou-se e, sem que ninguém pudesse ouvir, comentou:

- Seu Jorrrge, está perdendo seu tempo com esse jogadorrr!

- Por que?

- Por que ele "treme".

- Besteira, seu Bené.

- Besteira merrrda nenhuma, ele "treme" e bem!

- Por que o senhor acha isso?

- Meu amor, eu conheço o jogador que decide... ninguém engana o Escurinho aqui.

- É muito perigoso dizer, sem mais nem menos, que um jogador "treme".

- Mas não estou dizendo sem mais nem menos! Eu conheço. É por isso que vou aos campeonatos brasileiros. Quero ver os meus meninos "funcionarem". Lá é que vejo se "funciona" ou se não "funciona". Pra mim pode ser o que for no treino ou em jogos do campeonato carioca, mas quero ver "funcionar" é no brasileiro.

Bené, realmente, não perdia um campeonato brasileiro, fosse onde fosse. A fim de provocá-lo, comentei.

- O senhor só vai quando é perto aqui do Rio.

- Merrrda nehuma! Vou à todos! Seja onde for, pego meu ônibus e vou! Quero ver os meus "funcionarem". Levo frutas num saco plástico, meu travesseiro e vou. Já fui ao nordeste, já fui até ao Pará.

- De ônibus???

- Lóóóógico!!! -

O senhor é um leão!

- Leão merrrda nenhuma!!! Vou porque quero ver quem "funciona" e quem não "funciona"... só isso, seu Jorrrge.

Algum tempo depois, estava disputando um campeonato brasileiro, em Brasília. De repente, quem me aparece no golpe; ele em carne e osso.

- Senhorrr Jorrrge, vim!

- De ônibus???

- Lóóógico!!! E tem mais; só quero ver vitórias... não aceito nada que não seja vitória, só isso!

Terminado um jogo, tínhamos vencido, Bené aproxima-se.

- Senhorrr Jorrrge, todos "funcionaram"!

- Bom que o senhor tenha gostado.

- Gostei e bem! Agora, preciso ir pra casa. O senhor providencia minha condução.

- Mas seu Bené, não tenho carro aqui.

- Se vire, só sei que quero ir para casa... e rápido.

Não era arrogância ou coisa parecida. Ele falava assim por brincadeira. Como se tirasse onda de importante. Que era engraçado, isso era. Peguei um táxi e o levei. Estávamos passando pela "ZONA" quando ele disse:

- É aqui, pode parar.

- Aqui seu Bené???

- É ué!

- Na zona?!?!

- É, ué! Onde você acha que o Escurinho iria se hospedarrr?!?!

Deixei ele lá e voltei com um nó na garganta, deprimido, revoltado. Um dos maiores treinadores do nosso voleibol, depois de anos e mais anos de carreira ter que se submeter àquela indignidade. Dia seguinte, terminado outro jogo, convidei-o para jantar, a fim de falar com ele.

- Senhor Jorrrge, vamos jantar num restaurante? Vou tirar minha barriga da miséria! Quando venho aos brasileiros só como frutas e goiabada! As vezes sinto falta de um bife, batatas, arroz, feijão e, claro, minha Malzebier - cerveja preta, que ele adorava. Depois de conversarmos sobre o jogo, autoritariamente, disse.

- Seu Bené, vou colocar o senhor no hotel e não se preocupe; será tudo por minha conta.

- Senhorrr Jorge... meu lugar é na zona.

Sempre fiquei na zona. Não será agora que ficarei em hotel... só isso!

- Mas seu Bené, a zona é lugar perigoso, só tem vagabundo, gente que não presta!

Com os olhos umedecidos confidenciou.

- Senhor Jorrrge... vim da zona, fui criado na zona, vivi a vida toda na zona. Vivi na Lapa (bairro boêmio e outrora bastante violento, do Rio de Janeiro) e conheço tudo da vida mundana. Cantei em Cabarés, saí na porrrada, dei sopapo, levei sopapo e estou aí, comendo bebendo e apalpando.

- O senhor pegou o tempo de Madame Satã (travesti valentão que fez história no bairro)?

- Senhor Jorrrge... aquele era maaacho. Vi brigas homéricas. Era cadeirada, garrafada, cinzeirada, facada, navalhada, tiros e os capeta aquato. Ele era foooda!

- Daí vem toda a malandragem do senhor, né?

- Que malandragem?

- O senhor é um cara muito malandro. Tem muita sensibilidade e essa sensibilidade não cai do céu. O senhor sabe das coisas como ninguém. Sabe viver, sabe entrar, sabe sair, não passa aperto e, por tudo isso, sabe lidar com todo mundo, de A a Z.

- Não cai mesmo. E sei lidar com todo mundo, mesmo. Mas o que adianta? Não adianta merrrda nenhuma.

- Claro que adianta, seu Bené!

- Eu é que vou dormir na zona! Você conhece algum técnico que dorme na zona?

- Não.

- Sou analfabeto de pai, mãe e parteira. Nunca tive dinheiro. Nunca ganhei merrrda nenhuma com o voleibol. Se não fosse o Gil (Gil Carneiro de Mendonça, ex-jogador, ex-treinador e ex-presidente do Fluminense), a que sou eternamente grato, não seria nem técnico do Fluminense. Ele é quem me pagava, pouco, mas pagava. Muitas vezes, tirava do próprio bolso. Todos os diretores que chegavam no Fluminense queriam me tirar. O Gil é que não deixava.

- Qué iiisso, seu Bené!!!

- É, ué! Sou do tempo do técnico amador. Não se ganhava porrra nenhuma com esta merrrda. A única alegria, os amigos que fazia e faço, mas nada! Por isso que fico triste com algumas coisas. Por exemplo, o senhor... é técnico diplomado, não sabe merrrda nenhuma - ele nunca me poupava -, vem com essa porrra de ginástica e já chega ganhando rios de dinheiro.

- Está enganado, seu Bené!!!

- Enganado?!?! Enganado merrrda nenhuma!!! Estou nessa vida há muito tempo, revelei craques e mais craques para o escrete (como ele se referia à seleção brasileira) e essa turma que está aí? Fez o que, merrrda nenhuma! Só têm pose, mas nada! Não sabem merrrda nenhuma, mas vêm com aquela pose, com diploma, falando voleibolês e pagam, a eles, o que eles querem!

Fiquei puto.

- Seu Bené!!!... Trabalho em três colégios antes de chegar no clube para dar treino. Começo sete horas da manhã e chego em casa lá pelas onze, meia noite. No dia seguinte estou de pé às seis. Treinador é profissão que tem que ser remunerada. Trabalho, tenho que ganhar por isso. Se o senhor não pensava ou não pensa assim, o problema é do senhor; o senhor é que é um otário!!! E tem mais, não me comparo a quem quer que seja, inclusive ao senhor, mas o que faço, o que fiz, o que sou, o que deixo de ser, justifica o que pagam para mim.

- Senhor Jorrrge... é por isso que meu lugar é a zona. Não tenho estudo, não tenho diploma, não tenho merrrda nenhuma. Só tem uma coisa... faço craques para o "escrete", só isso. Ninguém dá valor a merrrda nenhuma. Como eu, muitos treinadores que estão aí, começaram na época do amadorismo. Agora... já foram técnicos de seleção carioca, de seleção brasileira e ganham rios de dinheiro. E o Escurinho aqui? Merrrda nenhuma!!!

Enquanto falava no Escurinho, esfregava levemente o antebraço, querendo sugerir preconceito de cor.

- O senhor acha que é por preconceito, seu Bené?

- Claaaaaaro!!! Meu amorrrr... você já viu algum técnico crioulo na seleção? Já viu algum analfabeto na seleção? Viu merrrda nehuma!!!

- É!

- Meu amorrr... o Escurinho aqui é negro, anafalfabeto... mas burro, nuuuunca!!!

A malandragem vem dos tempos das zonas e da Lapa; definitivamente, não eram locais para otário.

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