Histórias/Bastidores 16

 

Conversando com Bené - Parte II.

 

Fui para o Fluminense e levei toda a equipe, de treinadores, que trabalhava comigo, na AABB. Não tinha espaço para Bené. Minha intenção era a de colocá-lo como um consultor, com plenos poderes para interferir. Observar treinamentos, fazer críticas, sugestões, etc... A minha metodologia era totalmente diferente da dele. Não quero dizer que a minha era a certa e a dele a errada. Tinha certeza de que ele contribuiria bastante na realização do trabalho. Acertei, ele contribuiu realmente. Viemos a fazer uma tremenda parceria. Durante os treinamentos, sempre que queria, interrompia para fazer correções, dar broncas, elogiar, etc...

Uma coisa ele não engolia e, de vez em quando, voltava ao assunto:

Oh Jorrrge... você ainda não me explicou porrr que me tiraram o mirim?

A pregunta me deixava embaraçado. Só via uma solução: falar a verdade, jogar aberto, sem rodeios, sem "papas na língua".

- Seu Bené... a equipe que trouxe comigo da AABB já está mais do que acostumada com a minha metodologia.

- Lá vem você, também, com essa besterada de metodologia.

- O voleibol mudou muito...

Não deixou acabar.

- Mudou merrrda nenhuma!!!

- Mudou sim, seu Bené. O treinamento evoluiu e eu, queira o senhor ou não, vou fazer a coisa da maneira que acho certo. E a maneira que acho certa é manter o trabalho que minha equipe vinha fazendo na AABB.

Ele olhou sério, colocou uma das mãos na cintura - na outra tinha sempre uma toalha - e mandou:

- Merrrda nenhuma!!!

Deu meia volta e saiu fora. Ficou esperando oportunidades para "alfinetar", coisa que não faltou.

Certa ocasião, estava dando um treinamento de bloqueio. Os jogadores atacavam nas duas extremidades da rede e outros bloqueavam do lado oposto. Instruía os jogadores para atacarem no espaço em que estavam os bloqueadores, ou seja, que não evitassem o bloqueio. O objetivo era fazer os bloqueadores praticarem. O treinamento era de bloqueio e não de ataque.

Bené, não ouviu essa instrução. Ataque daqui, bloqueio. Ataque dali, bloqueio. E assim por diante. Dado momento ele interrompe para corrigir um dos atletas.

- Molecão, vire o corrrpo e ataque para a diagonalll.

O garoto ouviu, balançou a cabeça concordando e saiu. Atacou outra vez e foi bloqueado. Bené, levantou e instruiu novamente.

- Molecão, já falei, vire o corrrpo e ataque para a diagonalll, porrra!!!

O garoto, meio sem jeito, balançou a cabeça novamente e saiu para atacar outra bola. Mais um ataque e novamente bloqueado. Bené, irritadíssimo, levantou e partiu em sua direção. Vociferando deu a bronca.

- Sua merrrda, já falei para virar o corrrpo e atacar para a diagonalll, porra!!!. Você é burro? Você não quer aprender a jogar voleibol. Quer ser burrro o rrresto da vida?

O garoto, sem querer desrespeitá-lo, defendeu-se.

- O Jorge falou para atacar no bloqueio, para treinar o bloqueio.

Ele olhou para o garoto, olhou na minha direção - estava no lado oposto da quadra - olhou para o garoto, novamente na miha direção e berrou.

- O Jorrrge tá maluuuco. Nunca vi ninguém treinar para ficar no bloqueeeio!!! Eu sempre ensinei a sair do bloqueio...; treinar para ficar no bloqueeeio? Nuuunca!!! Esse Jorge não entende nada de voleibol. Deu meia volta e foi embora resmungando.

A gargalhada foi geral. Do outro lado da quadra, quase chorei de tanto rir.

Acabado o treinamento fui ao bar beber um refrigerante e Bené chegou.

- Senhorrr Jorrrge, muito interessante aquele treinamento para ficar no bloqueio!!!

- Seu Bené, o senhor não entendeu o objetivo do treinamento.

- Merrrda nenhuma! Lóóógico que entendi. Vem a levantada e a molecada tem que dar porrrada. Muito bom o treino, muito bom. Boa metodologia!!!

Caiu na gargalhada, aquela de chorar. Com cara de babaca, tentei explicar.

- Seu Bené, se o jogador não atacar no bloqueio, como é que o bloqueador vai praticar?

- Já entendi, já entendi, senhorrr Jorrrge. O senhor só sabe ensinar a dar porrada! Só isso!

Virou - com a toalha na mão - e foi embora... triunfalmente; ganhou o dia.

 

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