Histórias/Bastidores 15

 

Conversando com Bené - Parte I.

 

No início da minha carreira de treinador, o Fluminense F.C., do Rio de Janeiro, detinha a hegemonia nas categorias de base - até o juvenil. Um dos maiores responsáveis por ela foi Benedito Silva, o famoso Bené, falecido em janeiro de 2003.

Além dos títulos, iniciou uma série de jogadores extraordinários, muitos dos quais vieram a se consagrar internacionalmente. Com o tempo, o Fluminense, pouco a pouco, foi sendo batido, perdeu a supremacia. Bené, embora não tenha sido responsável por nada, foi perdendo a credibilidade. Disseram que estava desatualizado e, para muitos, acabado. Bené, injustamente, entrou para o "folclore".

Alguém pode dizer: não é verdade! Mas é verdade, sim. Até para alguns que o homenagearam ruidosamente nos seus últimos dias. O respeito pela pessoa dele continuou o mesmo e até aumentou. O reconhecimento pela sua obra tornou-se unânime. Morreu benquisto, festejado e, com toda justiça, mitificado.

Fui seu adversário. Como adversário, fui seu admirador. Via nele um purista que admirava o voleibol bonito, bem jogado, fosse de quem fosse. Em 1982 fui contratado para o Fluminense com a atribuição de dirigir a equipe principal, masculina, e coordenar todas as categorias. De adversários passamos a companheiros e, muito mais, grandes amigos. Usufrui sua sabedoria - não só de voleibol, mas de vida - deliciei-me com suas histórias e fui "ombro" para suas lamentações.

Nestas conversa com Bené tentarei reproduzir sua filosofia, seu senso de humor, sua tristeza.

- Oh Jorrrge, fiquei muito contente com a sua vinda para o Fluminense. Você mais o Coaracy Nunes (Vice-Presidente de esportes na ocasião e atual Presidente da Confederação Brasileira de Natação) e a D. Helena Carneiro (Diretora de Voleibol, na época) estavam nesse chove não molha por causa de dinheiro, essa besteira, e eu fiz de tuuudo para que você fosse contratado.

- Muito obrigado seu Bené.

- Obrigado merrrda nenhuma. Isso aqui está precisando de um técnico.

- Por que?

- Disseram que o "Escurinho" aqui não funciona mais!

- Bobagem, seu Bené.

- Bobagem merrrda nenhuma! Levaram quase todo mundo do Fluminense. E sabe o que disseram para a molecada? Que eu não entendo mais de voleibol, que aqui no Fluminense eles não iriam a lugar algum, que iam morrer, enfim, essa merrrda toda.

- Bobagem seu Bené. Inventam de tudo. O que eles queriam era tirar jogadores do Fluminense.

- Oh Jorrrge... esse aqui (puxando a pálpebra inferior com o indicador) é irmão desse aqui. A garotada mesmo é que fala. O "Escurinho" aqui é analfabeto de mãe, pai e parteira, mas não é burro.

- O senhor ficou arrasado, né?

- O que?! Eu adoro essa molecada. É única coisa que me interessa. São meus "beneditinos". Todos tem um B na polpa da bunda. O resto não vale merrda nenhuma.

- É um trabalho jogado fora, né mesmo?

- É e bem. Mas não é a primeira vez. Nunca me esqueço duma vez que contrataram um técnico aqui para o Fluminense dizendo que eu não tinha diploma.

Bené caiu na gargalhada de chorar - gargalhava em tom bem alto - e repetia: "eu não tenho diploma, eu não tenho diploma".

Ficou sério. Falando baixo, a fim de dar conotação grave, continuou.

- O técnico com diploma, que eles arranjaram por aí, consegui deixar todo mundo puto. Quase todos os meus juvenis, que eu ensinei desde mirins... foram embora ou pararam de jogar voleibol.

Caiu na gargalhada - gargalhava em tom altíssimo -, olhou pra mim com cara de desprezo e continuou.

- Pra que serve esta merrrda desse diploma. Não sabem lidar com a garotada. O técnico tem que saber tratar o jogador. Eles vêm com aquela merrrda daquela conversa de táticas, estratégias, esquemas, essa merrrda toda e daííí? O principal é saber tratar a garotada e isso eles não sabem. Vão acabar com o voleibol!

- Mas seu Bené, o diploma é importante. Afinal de contas, o cara estuda matérias importantes que ajudam no treinamento de um time.

- Merrrda nenhuma!!! O negócio deles é ginástica pra lá, ginástica pra cá, alongamento. Esta merrrda está na moda. Que porrra é essa? Pra mim é rebolação.

Faz uma pausa olhando fixamente nos meus olhos e continou o desabafo.

- E com a "menina" (como ele se referia à bola)? Que que eles mandam fazer? Merrrda nenhuma!!! Só isso!!!

- Também não é assim! O senhor está exagerando! Peraí, eu também sou técnico diplomado.

- E também só pensa em ginástica. Aquela turma lá da AABB (clube que eu treinava) só sabe dar porrrada. Os meus não; brincam com a "menina". São beneditinos. Pode ver que têm um B na polpa da bunda.

O clima estava ficando pesado, uma vez que aquilo estava me atingindo.

- Quer dizer que só o senhor é fodão?

- Eu sou professor! Professor de voleibol! Só isso!

- E qual é a diferença entre técnico e professor?

- Oh Jorrrge, você é técnico, eu sou professor. Eu ensino voleibol. Comigo não tem essa merrrda de ginástica. Eu ensino bater na orelha da menina, dar efeito contra, virar o corpo, usar o tórax, enfim, voleibol clássico. Você só ensina ginástica, só ensina dar porrrada. Seus jogadores só sabem dar porrrada! Só isso!

Fiquei na minha, a fim de encerrar o assunto. Achei que estava ficando um pouco demais. Ele não deu trégua.

- Quero saber por que me tiraram o mirim?

- O Coaracy e a D. Helena que, aliás, gostam muito de você, disseram que eu coordenaria o Fluminense todo. Não falaram em você. Ou melhor, disseram que eu teria que fazer os planos.

- Como assim?

Fiquei sem ação, mas como a conversa era sem "papas na língua", mandei na lata.

- Comentaram que os jogadores estavam falando que o senhor está ultrapassado, que aqui não tinham futuro, que queriam um treinamento melhor, enfim, essa coisa toda que o senhor conhece bem.

Foi um baque. Ficou passado. Com os olhos marejados, diminuiu a voz e desbafou:

- Conheço e bem. Outro dia mesmo um pai estava dizendo que nos Estados Unidos os técnicos são John, Harry, Clark, Hamburger, Chesburguer, essa merrda toda e aqui, no Fluminense, o técnico é Benedito da Silva - o nome de Bebé. O Jorrrge...fiquei magoado. O filho dele, aquela merrrda, que entra ano sai ano e não aprende a jogar voleibol, trouxe do mirim. Ensinei tudo, tudiiinho. Se não fosse por mim, aquela merrrda estaria batendo punheta em gato!!!

- É senhor Bené, o pouco que sei da vida... ela é assim.

- Senhorrr Jorrrge... o senhorrr não sabe nada da vida.

- O senhor é que sabe, né?

- Senhorrr Jorrrge, depois a gente conversa.

E como viemos a conversar. Muitas das conversas foram revestidas de mágoas. A maioria, no entanto, cheias de humor e frases inesquecíveis.

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