História/Bastidores 14

 

4ª Maravilha Negra do volei brasileiro.

 

Tive relacionamento estreito com Bené ao longo da minha carreira de treinador e muito mais próximo ainda por ocasião da minha estada como treinador do Fluminense. Conversávamos bastante e, dessas conversas, consegui "pescar" uma ponta da admiração que ele tinha por jogadores negros. Não que fosse racista, muito pelo contrário, mas tinha um carinho todo especial. Isso podia ser detectado com seus "vaticínios", para com qualquer jogador negro ou moreno: "o escurinho tem qualidades natas... vai para o scratch". Muitas vezes nem tinha qualidade alguma, mas ele via e pronto final.

Certa ocasião foi abordado por dois garotos de 13 anos que pediram para fazer teste, uma vez que queriam jogar voleibol pelo Fluminense. Um branco e um negro e ambos vestidos com a farda do Colégio Militar. Ele, que colocava apelido em todos, não demorou; passou a chamá-los de General e Coronel. Cá comigo, perguntei: qual o critério para chamar um de coronel e o outro de general? Fiz a pergunta e a resposta veio tipo ato-reflexo: "O escurinho é o general, ué!

Negrelli foi um dos jogadores mais importantes da Seleção Brasileira, em todos os tempos. Num tempo em que os negros eram minoria absoluta, notabilizou-se por ser, primeiramente, um craque de bola, depois, por ser um dos jogadores mais bem quistos da nossa história. Consternado com o falecimento de Bené, fez um depoimento importante revelando toda sua gratidão. A seguir, transcrevo, na íntegra.

Queridos amigos do volei. Sei da honra, da carinho, do reconhecimento e do amor que todos os amigos cariocas tiveram pelo grande Bené. Quero dar um depoimento interessante, pois tenho certeza que vocês desconhecem o quanto Bené foi importante para minha modesta carreira no voleibol. No seu tempo de seleção atuou ao lado de Bebeto de Freitas, Antônio Carlos Moreno, Danillas, Mário Marcos, William e José Roberto Guimarães - ambos recém saídos do juvenil - e muitos outros.

Conheci Bené, em 1965 assistindo o campeonato brasileiro infantil, masculino, no Rio de Janeiro, realizado no Clube Tijuca. Na oportunidade, eu com 15 anos e jogava por São Paulo. Eduardo Barata e Paulo Roberto de Freitas (Bebeto) devem lembrar.

Terminando o campeonato, Bené aproximou-se e me disse que haviam três maravilhas negras no voleibol brasileiro: o 1º, Borboleta, o 2º, êle mesmo e o 3º, Pedrão. Disse também que tinha me observado durante os jogos do campeonato e que eu poderia ser a 4ª maravilha negra do volei brasileiro, desde que melhorasse minha técnica de cortada; eu entrava de lado para a rede, saltava muito próximo a ela, para executar a cortada e, consequentemente, encolhia o braço na hora de golpear a bola. Isso, facilitava a ação do bloqueio adversário, pois o impacto na bola era próximo a borda superior da rede. Ele me orientou para que durante as passadas eu entrasse de frente para rede, saltasse longe dela e estendesse o braço para golpear a bola o mais alto possível da rede.

Treinei muito para melhorar estas deficiências técnicas, observadas por ele. Nos seguintes campeonatos brasileiros - em quase todos ele estava presente - sempre me orientava e incentivava dizendo que estava melhorando e me dava algumas dicas de outros fundamentos. Quando cheguei à seleção brasileira adulta em 1969, sendo o 3º negro a vestir a camisa da seleção brasileira ( Borboleta, Pedrão e eu ) disse Bené:

- Você conseguiu, você é a 4ª maravilha negra do Brasil, mas continue treinando, pois, tem ainda muito pra melhorar.

Os jogadores que atuaram na década de 60 e 70, com certeza lembram do santista Pedro Barbosa de Andrade, o maravilhoso Pedrão, que também muito me ajudou com seus conselhos e exemplos como homem e atleta.

Como viram, Bené foi para mim muito importante. Seus conselhos contribuíram no decorrer de minha jornada como atleta. Fico triste, pois a comunidade do voleibol perde um dos seus maiores ícones, mas ao mesmo tempo feliz pelo privilégio de ter conhecido e convivido um pouco com um ser humano tão iluminado.

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