Histórias/Bastidores 11

Papo Brabíssimo.

Decisão do título do Campeonato Carioca de 1981, AABB x Fluminense F.C. Eu era o treinador da AABB. Foi um jogo muito equilibrado. Para se ter uma idéia, quando o 4o set terminou, já tinham sido transcorridas 4 horas. O sistema de contagem de pontos ainda era o com vantagens, inclusive no 5o set.

Jogavam no time da AABB Careca, Bonga, Cado, Mones, Pina, Rui, Marcos Pinheiro, Lino e alguns jogadores mais novos, ainda juvenis. Já contei uma estória, aqui no site, ocorrida com esse time (Grannnde Sacrifício). Destaquei na ocasião a criatividade de Careca, o capitão da equipe.

Antes de começar o 5o set, eu estava sentado no banco de reservas pensando. Essas coisas que pensam os treinadores, ou seja, quem escalar, o que falar para os jogadores, etc... Do meu lado, também sentados, alguns do time e entre eles Lino. Um dos melhores e mais completos jogadores de vôlei do Brasil em todos os tempos. Era muito tranqüilo, falava pausadamente, um gozador de primeira linha. Nos jogos, sobretudo nos decisivos, era um guerreiro. Careca aproximou-se de mim, colocou um pé sobre o banco e, com a maior serenidade, ao lado do Lino, começou a falar:

- Jorge, o jogo foi duríssimo até aqui. A rapaziada está cansada. O Lino está "morto". Acho - sempre dava suas opiniões - que você deve colocar alguém mais descansado. O Lino não vai agüentar essa "negra". É melhor alguém mais descansado do que o Lino "morto" como ele está.

Achei que já tinha visto tudo no voleibol. Agora, um companheiro falar uma coisa daquelas antes de começar a decisão de um título, para mim era demais; o "fim da picada". Boquiaberto, não tive reação imediata. Pensei com meus botões que se tratava de um comentário negativo, desestimulante, ou seja, não tinha nada a ver; um "papo brabíssimo".

Antes de falar qualquer coisa, Lino segurou meu braço e, sem sequer olhar para o Careca, disse:

- Jorge, estou "inteirinho", cheio de vontade para jogar. Acho que vou ser importante nessa "negra" e quero jogar. Você é o técnico, você decide se vou ou não vou jogar. O que você decidir, está decidido!

Antes que falasse alguma coisa, Careca, também sem olhar para o companheiro, voltou a falar:

- Jorge, vai por mim. O Lino é um grande jogador, mas descansado. Do jeito que ele está, "moooorto", não vai ajudar. É melhor colocar um desses garotos cheios de saúde, que vai entrar dando "porrada". O Lino é experiente e vai entender isso. Afinal de contas, você tem que fazer o que é melhor para o time. Você é o técnico, você decide e o que você decidir, pra mim está decidido. Mas pela última vez: coloca alguém descansado no lugar do Lino!

De imediato, Lino, sem olhar para Careca, replicou com veemência:

- Jorge, estou "inteirinho"; estou louco de vontade de jogar; acho que vou ser importante para o time; estou a fim de ganhar. A decisão é sua. O que você decidir tá decidido. Acato. Só não quero que você vá no papo de ninguém!

Ambos retiraram-se para bater bola, naquele momento que antecede o início do set. Fiquei estático pensando e perguntando-me: que papo é esse antes de uma negra que vai decidir um título? Esses caras têm o que na cabeça? É um bando de doidos. Enfim, coisas desse gênero.

Momentos antes de começar coloquei na papeleta oficial os números dos jogadores que iriam começar o set. Coloquei Lino. Jamais tinha aventado tirá-lo de jogo algum e muito menos de uma decisão. Era um dos jogadores mais importantes da equipe, não só pela sua eficiência, mas sobretudo pela sua coragem nessas situações.

Iniciado o jogo, Careca encheu o Lino de bolas. Levantou cerca de 70% das bolas para ele. Lino jogou uma barbaridade; foi o nome do jogo e, muito por causa da sua atuação, ganhamos o título.

Terminado o jogo, nem comemorou com os companheiros. Veio na minha direção e, com absoluta serenidade, falou:

- Comigo não tem papo não. Meu negócio... é ali dentro!!!

Foi ele sair e Careca chegar. Com o sorriso maroto, comprimentou-me e acrescentou:

- Tinha que dar uma instigada nele. O cara é a maior fera!!!

Foi só aí que percebi que Careca tinha feito toda aquela encenação para tocar nos brios do Lino. Ele sabia que o cara iria arrebentar! Esta foi mais uma demonstração da sua notável capacidade de liderança e de estimulação dos companheiros.

Um recado a todos - sobretudo professores e treinadores - que visitam o site: isso não se aprende em faculdade alguma, só mesmo quando se trabalha com uma turma dessas.

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