Histórias e Bastidores

Papo de Bêbado

Nos campeonatos internacionais os organizadores designam uma pessoa para cada equipe com várias atribuições: intérprete, guia, representante perante outras comissões, "babá", etc...; são os "attachées".

Recebem as equipes no aeroporto, trabalham incessantemente o campeonato todo e só deixam a equipe no aeroporto por ocasião do embarque de volta. São verdadeiros heróis anônimos, pois têm, acima de tudo, descomunal paciência para lidar com irresponsabilidades, indisciplinas, vedetismos, nervosismos, gozações, enfim, uma série de incovenientes. Como recebem excelente treinamento para a função, acabam saindo-se bem. Sem eles, seria impossível realizar qualquer campeonato.

No Campeonato Mundial Feminino de 1986, na ex-Tchecoslováquia, fomos recebidos por um "attachée" meio estranho, de nome Ivam. Não foi nada simpático no nosso primeiro contacto. Deu boas vindas, ordenou que seguíssemos para o ônibus que estava à nossa espera, deu as costas e começou a andar para a saída do aeroporto.

Era comum o "attachée" interessar-se pelas bagagens, saber se tínhamos feito boa viagem, se precisávamos de alguma coisa, etc... Com meus botões, pensei: esse tá liquidado. No caminho, do aeroporto para o hotel, mostrou-nos - sem qualquer entusiasmo - as praças, monumentos e museus da linda capital Praga. Como sempre interessei-me pela história do país; fazia perguntas e mais perguntas a respeito de tudo o que ele mostrava. Ele, secamente, respondia-me monossilabicamente.

Logo após o jantar, falando português como falam os portugueses em Portugal, veio com as primeiras informações: reunião tal, a tal hora; treinamento tal hora; refeições tal, tal, e tal horas, etc... Bem informado, passei a fazer outras perguntas.

- Qual é a moeda aqui da Tchecoslováquia?

- Coroas.

- Quanto vale?

- Um rublo soviético.

- E quanto vale o rublo soviético?

- Em relação a qual moeda?

- Ao dólar americano.

- Um rublo vale um dólar e, conseqüentemente, uma coroa, que vale um rublo, também vale um dólar.

- Que maravilha! Não sabia que a coroa era tão valorizada!

A realidade era que, no câmbio negro, um dólar valia mesmo aproximadamente 30 coroas. Ivam continuou enfático.

- Mas é.

- E o poder aquisitivo da coroa?

- Bem, o senhor pode comprar tudo o que deseja, sem problema algum.

- Se quiseres beber um bom uísque ou uma boa vodka, é só entrar numa loja e comprar.

- Tranqüilo assim?

- É... só que não encontrará.

- Por quê?

- Porque não tem.

- Mas por que não tem?

- Porque não entregam.

- Por que não entregam?

- Porque ninguém compra.

- Mas por que ninguém compra?

- Oh, senhor Jorge... porque não entregam!

Já estava meio irritado com aquele papo de bêbado, mas insisti.

- Não entendi.

- Simples seu Jorge. O senhor encontrará uma boa vodka nas lojas para turistas. Nós, tchecos, não podemos comprar em lojas de turista. É nossa lei. Logo, não compramos. Se não compramos, obviamente, não precisam entregar.

- Mas o senhor falou que poderíamos comprar tudo o que desejássemos, não foi?

- E pode. Só tem que esperar que entreguem. Quando entregarem, prepare umas 140 coroas e compre uma boa vodka russa ou polonesa... são muito boas.

- Cento e quarenta dólares por uma garrafa de vodka? Tá maluco!

- Não estou, é quanto vale. Por isso não compramos. O salário médio aqui são 35 coroas. Lembra que disse que uma coroa vale um dólar? Pois é, seu Jorge. Só vale aqui. Saiu daqui não vale nada. É nossa lei. Dizem-nos essas coisas para dar-nos a impressão de que nossa moeda é tão forte como o dólar, que somos um povo que trabalha pelo sucesso do sistema e que nosso trabalho é recompensado a tal ponto que nossa moeda vale tanto quanto à dos capitalistas americanos. Mas, se o senhor quiser comprar, pode comprar!

- Mas que papo é esse... sr. Ivam.

Fui dormir com aquela impressão de que tinha jogado "conversa fora". Valeu.

Dia seguinte, sempre após o jantar, sentamos para continuar a conversa. Como em todos os países comunistas, os cidadãos não podiam e não deviam falar abertamente sobre o sistema. O Ivam era um especialista em evasivas, todas revestidas de sagaz ironia. Ele falava com um sorriso irônico o tempo todo.

Sempre tive enorme interesse por história, estava a fim de saber tudo sobre o socialismo. Com o evasivo Ivam, entretanto... ficou difícil, mas insisti. Na roda estavam as jogadoras da seleção - na época Isabel, Roseli, Heloisa Roese, Regina Uchôa, Ana Richa, Ida, Adriana Samuel e outras - e eu sentamos em volta de Ivam para um bate-papo. Como sempre, eu começava com o assunto que mais me interessava: o comunismo. Como o ambiente era sempre o de "encarnação", as jogadoras esfregavam as mãos como se pensassem: vem alguma por aí.

Falando baixinho e querendo demonstrar receio e sigilo, perguntei:

- Seu Ivam, o que o senhor acha do comunismo?

Ele, muito malandro, sorriu - com ar de quem quisesse dizer lá vem mais uma desse idiota - olhou em volta para sentir a reação das meninas, alisou o bigode ralinho e, com sotaque bem de português, começou a falar em voz baixa também.

- Oh seu Jorge... seria o mesmo que eu perguntar ao senhor o que o senhor acha do ar que respira.

- Como assim?

- O senhor pode escolher o ar que respira?

- Não.

- Mas gosta.

- Ué, tenho que respirar; né?

- É a mesma coisa que digo. Tenho que viver aqui. Se o sistema é comunista, vivo no sistema comunista.

- Mas gosta?

- Como posso saber?

- Sabendo... ora essa!

- Então, senhor Jorge, responda-me: o senhor gosta do ar que respira? O senhor gosta de outro ar; pode colorir o ar que respira; pode torná-lo mais úmido; mais seco; mais leve; etc...?

- Claro que não!

- Eu também não posso mudar nada, oh senhor Jorge. No caso, acho que a pergunta do senhor foi respondida. O senhor quer fazer outra?

Deu aquele sorriso, coçou o bigode e olhou para as atletas. Estas riram com a resposta. Olharam para mim e, certamente, pensaram: está se dando mal. Insisti:

- Mas e a liberdade?

- Que liberdade?

- Que liberdade?! A que vocês não têm. O sistema comunista castra a liberdade de ir e vir.

- Temos muita liberdade, sim senhor.

- Como têm?!

- Temos.

- Vocês podem sair do país a hora que quiserem?

- Podemos.

- Como! Todo mundo sabe que no sistema comunista ninguém pode sair do país.

- Está enganado, senhor Jorge. Podemos, sim.

- Como?

- Basta fazermos uma petição ao governo para que sejamos autorizados a sair.

- É fácil assim?

- É muito fácil.

- Então, por que não saem para viajar, fazer turismo, conhecerem outros lugares, etc...?

- A petição é muito fácil. Só que o governo precisa colocar na autorização 12 carimbos.

- E põem?

- Só 11.

- E o décimo segundo?

- Nunca põem.

- Então vocês não podem sair.

- Com os 12 carimbos podemos.

- Mas se eles não dão o décimo segundo carimbo, significa que vocês não podem sair, ora bolas...!

- Sem o décimo segundo, não.

- Então, cara!

- Que podemos, podemos. É só termos todos os carimbos.

Irritado, encerrei o papo:

- Para com isso, senhor Ivam! Você quer me embromar?!

Ivam sorriu, coçou o bigode novamente, olhou em volta com ar de quem tinha me feito de palhaço. Olhei em volta e percebi que as jogadoras, contendo os risos, também acharam.

O malandrão aqui, levou uma boa sacaneada.

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