Histórias/Bastidores - 07

Pancadaria no ônibus

Os países do leste europeu, durante o período socialista, eram a nata do voleibol internacional. Naquela ocasião, o Brasil realizou profícuo intercâmbio contra equipes do quilate da ex-URSS, Polônia, ex-Tchecoslováquia, etc...

Quando vinham aqui no Brasil recebíamos da melhor maneira possível. Hotel, alimentação, transporte, tudo, tudo, tudo do bom e do melhor. Quando íamos para lá... caramba! Não que não quisessem nos receber bem. Muito pelo contrário, a situação econômica daqueles países estava ruim. O socialismo estava "micando".

Em 1984, fizemos uma série de jogos na Polônia. Nunca passamos tanto sufoco. O treinador da seleção deles, além de ser um grande profissional, era um grande "armador" de confusões. Arrogante, prepotente, antipático, enfim, uma das pessoas mais detestáveis que conheci no voleibol. Fez de tudo para ganhar os jogos. Olha que não precisava... Tinha um timaço.

Fiz amizade com o intérprete que serviu à nossa delegação. Era um brasileiro, que estava cursando em uma universidade de engenharia siderúrgica, em Varsóvia. Ele ficou indignado com os absurdos que ouvia a nosso respeito e resolveu "abrir o bico", o que, na ocasião, pelo sistema coercitivo lá adotado, poderia trazer-lhe grandes embaraços. Contou-me, que se referia à nossa equipe como bando de vagabundos, bagunceiros, ignorantes e outras coisas mais, impublicáveis. A pior delas foi nos obrigar a fazer uma viagem de ônibus sem calefação, a uma temperatura baixíssima (abaixo de zero), de sul a norte da Polônia. O time deles foi de avião.

Nas estradas não havia um restaurante, um banheiro, uma "alma penada". Começamos a terrível viagem e o frio começou a pegar e pegar legal. Não havia agasalho que desse conta. Estávamos todos encolhidos, calados, cabisbaixos e maldizendo o "armador". Encontrei a solução: o bom e velho "cobertor de pobres". Tinha comprado umas garrafas de vodka de trigo em Moscou. Abri, dei uma talagada e passei a garrafa. Voltou vazia. Abri outra, a mesma coisa; voltou vazia. Mais uma e mais uma e mais uma, até que acabou minha provisão. Não demorou muito, alguém abriu uma outra e mais outra. Todos que tinham comprado o "cobertor" passaram a abrí-lo e fazer rodar. Resultado: todo mundo na maior euforia, rindo de tudo, conversando, contando piadas, cantando, enfim, nem aí para o frio. Alguns até pegaram no sono, entre os quais Bebeto de Freitas, o técnico.

Parecia que não fazia frio algum. Não demorou. Começou o vale-tudo, prática comum naquele grupo. Luta mesmo, sem violência, sem contundência, mas luta. O "pato" da vez... eu. Fui agarrado, levei empurrão, mata-leão, sopapo daqui, cascudo dali, etc... Não havia nada, tecnicamente/marcialmente, que eu pudesse ter feito. Só encontrei uma saída: morder. Isso mesmo, morder. Quem passou na minha frente, levou uma mordida. Na mão, no braço, no peito, nas pernas, etc... De alguma maneira consegui desvencilhar-me, mas continuei apanhando. Levava um empurrão e onde caía agarrava um e tacava-lhe uma mordida.

Serenada a pancadaria, sossegamos um pouco e chegamos ao nosso destino: Gdanski, norte da Polônia. Mais uma do "armador". Para jantar, uma fatia transparente de presunto e duas rodelas de pepino. Fomos dormir com a impressão de que tínhamos vivido um dos piores dias das nossas vidas.

Dia seguinte, início do treinamento, Bebeto colocou - como fazia habitualmente - a equipe perfilada sobre a linha lateral da quadra, a fim de fazer uma preleção. Quando viu a maioria dos jogadores com mordidas, virou-se para mim, viu que eu também estava repleto de arranhões e todo vermelho, arregalou os olhos, fechou-os, balançou a cabeça como se estivesse confuso e perguntou bem baixinho:

- Que "porra" é essa?! Vocês ficaram malucos? Que merda é essa que vocês aprontaram?

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