Histórias/Bastidores - 06

A cidadezinha... até que é boa.

Fomos fazer um jogo no oeste de Santa Catarina, em uma pequena cidade chamada Urubici. Nosso chefe de delegação, Sr. Mario Malta, não pôde ir. No seu lugar foi o Dr. Serafim.

Dr. Serafim era muito tímido e reservado. Tinha dificuldade de se expressar. Nunca olhava nos olhos do seu interlocutor. Para disfarçar, girava a cabeça de um lado para o outro, mas sempre olhando para o chão. Mais, fazia movimentos circulares com as duas mãos, como se estivesse, com um pano em cada mão limpando vidraça; era uma característica marcante.

Jogamos e logo após nos ofereceram um jantar de confraternização. Nesse tipo de evento usualmente os anfitriões fazem um discurso de agradecimento, geralmente muito simpático. Nosso chefe também, agradecendo a hospitalidade, retribui com palavras simpáticas sobre o povo, a cidade, os políticos, etc...

Entre nós rolava, como brincadeira, colocar companheiros em situações embaraçosas. Surgiu a oportunidade. Era fácil adivinhar quem faria o discurso: Dr. Serafim. Fui designado para passar-lhe a atribuição. Procurei-o e, em tom grave, comecei:

- Serafim, seu Mario (Mário Malta chefe da delegação) não veio e você, como chefe da delegação substituto, tem que fazer o discurso de agradecimento.

Surpreso, com cara de assustado, imediatamente reagiu:

- Você tá de sacanagem! Quer me meter numa "roubada"? Coloca outro, não faz isso comigo.

Com ar o mais sério que pude fazer, fiz-me de irredutível. Ele ainda tentou desvencilhar-se da atribuição, mas mantive a incumbência. Vendo que não tinha opção, concordou em fazer o discurso. Passei, então, a dar algumas dicas, tipo o que falar, como postar-se, etc...:

- Serafim, em primeiro lugar, não fique girando a cabeça e limpando vidraça com as mãos. Bota as mãos no bolso e fala olhando para frente.

Tem início o discurso.

Serafim coloca, incontinente, as mãos no bolso. Começamos a dar risadas. Ele, mais embaraçado ainda, foi em frente:

- Veja bem... quer dizer... queria agradecer ao povo dessa cidadezinha, que eu nunca tinha ouvido falar.

O presentes olharam meio atônitos. Serafim, torcendo os lábios, girando a cabeça e olhando para o chão, continuou:

- É uma cidadezinha boa...isso aí, veja bem... quer dizer... até que é boa, muito boa; gostamos!

Os presentes ficaram atônitos. Nós, treinadores e jogadoras, não agüentávamos de tanto rir, o que embaraçava mais ainda o nosso orador. E ele prosseguiu:

- Veja bem...é isso aí... quer dizer... é uma cidadezinha bem simpática, gostamos...é isso aí, gostamos...valeu!

Acabado o discurso veio na minha direção e disse:

- Veja bem Jorge...p. sacanagem!!! Tá me devendo uma!

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