Histórias/Bastidores - 02

Fernandão, o "traidor".

Fizemos uma excursão para a ex-União Soviética muito produtiva, em 1982. A equipe deles era extraordinária, a melhor do mundo naquela época e uma das melhores que vi jogar. Tínhamos muito para aprender e, de fato, aprendemos. Além dos jogos amistosos, tivemos uma experiência fantástica. Nossos jogadores realizaram testes físicos elaborados pelos treinadores soviéticos (naquela ocasião os melhores do mundo) e os deles os elaborados por Edmundo Novaes e Paulo Sérgio, respectivamente, fisiologista e preparador físico da nossa seleção.

Fora da quadra, um ambiente de confraternização. Lado a lado, fazíamos refeições, assistíamos espetáculos circenses e culturais, etc... até que um dia... o "bicho pegou".

Fomos à praia em Riga, cidade linda, banhada pelo mar Báltico, e resolvemos jogar uma "pelada" de futebol na areia: Brasil x URSS. Tínhamos excelentes jogadores. Renan, William, Domingos Maracanã e Bebeto de Freitas jogavam uma bola redonda. Xandó, Montanaro e Amauri destacavam-se pela truculência com que disputavam as bolas. Bernardinho, Cacau, Rui, Marcus Vinícius Freire e Leonídio, eram aplicados. Badalhoca, como sempre, um brincalhão, não estava nem aí para o jogo. Bernard ficava sempre na "banheira" e eu era o goleiro.

Como alguns jogadores deles não jogavam futebol, enxertaram o time com "peladeiros" locais que, para o nosso azar, eram muito bons de bola. Não tinham goleiro. Demos a solução: emprestamos o Fernandão, que estava com dores no joelho e não podia jogar na linha.

A bola rolou e o jogo ficou disputadíssimo. Não tardou as divididas mais ríspidas e daí, o "pau cantou" de parte-a-parte. Temendo que alguém se machucasse Bebeto achou melhor acabar logo com a "pelada". Tomou a decisão: no primeiro gol acaba, classica entre peladeiros.

O jogo estava empatado em 2 a 2. Dominávamos a partida, mas não conseguíamos traduzir o domínio em gols. Tínhamos um grande obstáculo a transpor: o goleiraço Fernandão, que estava fechando o gol. Sua atuação começou a nos irritar, a ponto de passarmos a considerá-lo um "traidor". Fernandão fazia uma defesa e Bebeto, ansioso para acabar, vociferava a plenos pulmões: - Tá de sacanagem... oh palhaço fdp! - não era ofensa, era tratamento comum entre nós. Salvava um gol e Bebeto:

- Deixa passar... oh palhaço fdp!

Nosso time pressionava e Fernandão não deixava passar nada. Bebeto, com aquela voz potente, a toda hora berrava:

- Deixa passar... oh palhaço fdp!

Era só o que se ouvia. Depois de muito tentarmos, conseguimos marcar o gol. Acabado o jogo estávamos todos cansados e com dores, devido a violência do mesmo. Um dos "peladeiros" locais nos abordou e, simpaticamente, comentou:

- "Palhaço fdp" is a very good goal keeper; very... very good! (palhaço fdp é um goleiro muito bom; muito... muito bom!). Aí, a gargalhada foi geral.

Nota: - "Palhaço fdp" não significava, de maneira alguma, ofensa. Muito pelo contrário, era prática comum no dia-a-dia. A amizade reinante no grupo permitia essas manifestações.

 

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