Princípios Importantes no Treinamento de Voleibol - Metodologia

Metodologia.

O artigo anterior, 50, abordei a Adequação como Princípio Importante no Treinamento de Voleibol, em qualquer nível de competitividade. Neste, vamos focalizar outro princípio igualmente importante: a Metodologia.

Antes de começar gostaria expor um raciocínio. Com o advento da Internet é possível acesso a milhares de informações em qualquer parte do mundo. Sobre ciências relacionadas ao treinamento desportivo, didática, pedagogia, enfim, todos os segmentos relacionados ao voleibol, condicionamento físico, técnicas, estratégias e tática, etc.

Existe um risco; o da cópia. Ou seja, as pessoas pegam o algo escrito, produzido por alguém, apreciam e passam a utilizar como se fosse, diria, uma receita infalível.

Tenho a convicção de que o método que serve a um atleta, a uma equipe, pode não servir a outro atleta e/ou a outra equipe; de volta ao princípio Adequação.

Na minha maneira de entender, o ideal é que o professor, treinador colha informações, subsídios e formule a metodologia adequada aos atletas e/ou a equipe em treinamento. O raciocínio vale também para treinadores com larga experiência. Raciocinando juntos: será que o que foi utilizado anteriormente, para determinado atleta e/ou equipe é ou ainda é absolutamente apropriado? Sempre?

Meu ponto de vista: pode até ser, sem dúvida, mas creio que vale suspeitar que haja algo novo, haja algo a ser criado, de modo aplicar a metodologia de modo adequado. Pelo exposto, é possível perceber que estou vinculando um princípio ao outro.


Considerações feitas, vamos ao assunto. No artigo 50, referente a Adequação, mencionei, e vale repetir, que o ideal seria a elaboração de um Planejamento:

- com Objetivos Específicos, a serem alcançados em prazo curto;

- adequados ao Nível Físico e Técnico, dos jogadores;

- adequados ao Nível de Competitividade do campeonato do qual a equipe participará.

Por exemplo.

- Aquisição de Valências Funcionais indispensáveis à correta execução dos fundamentos da técnica individual.

- Aprendizagem e/ou aperfeiçoamento dos Fundamentos da Técnica Individual requeridos ao desempenho das Funções do Jogo: recepção, levantamento e meios de ataque.

- Elaboração da Estratégia Ofensiva adequada às capacidades dos jogadores.

A fim de não tornar este artigo muito extenso, vou dividir o assunto em três partes: nesta primeira vamos focalizar exclusivamente a Aquisição de Valências Funcionais.

 

1 - Aquisição de Valências Orgânicas e Funcionais indispensáveis à correta execução dos fundamentos da técnica individual e das ações Ofensivas e Defensivas.

No quadro a seguir, menciono exemplo de Valências essenciais e Métidos pelos quais ela podem ser obtidas, melhoradas. Professores e Treinadores podem acrescentar outras valências e outros métodos. A ideia é justamente provocar raciocínio, estudo, discussão, enfim, tudo que enriqueça o assunto.

 

 

Nota

No quadro de exemplos acima, não coloquei a Força e a Força Explosiva. Acho desnecessário, uma vez que, esses artigos são voltados sobretudo aos Professores e Treinadores de equipes de base. Como pode ser observado na apresentação do assunto, o fundamental nesta faixa de idade é a Aprendizagem e o Aperfeiçoamento da Técnica Individual. No caso, a execuçãos dos exercícios para esse fim, já é um trabalho que requer Força, só que com o peso corporal. No decorrer do processo, os atletas serão preparados para aquirirem a Força. Incialmente com um trabalho de formatação do esqueleto (acompanhamento fisioterápico construtivo e preventivo), preparação das inserções musculares, e aprendizagem correta da execução dos exercícios; processo que deve ser muitíssimo bem planejado, gradativo e, sobretudo, contínuo.

Alguns fatores devem ser considerados.

A – Individualidade Biológica.

Em um grupo de atletas nem todos têm as mesmas capacidades, inatas e/ou adquiridas. Ou seja, a atividade na Preparação Física pode não ser adequada a atletas bem dotados e atletas com qualquer anomalia/insuficiência/dificuldade orgânica ou funcional.

O ideal, ideal mesmo é submeter o grupo a exames clínicos, laboratoriais, fisiológicos, fisioterápicos. De modo ministrar atividades que atendam às necessidades, de modo individualizado, a todos.

Alguns exemplos.

1 - Na Seleção Brasileira Feminina Adulta no ciclo de preparação Seul 1988, o preparador físico, Prof. Julio Noronha, de posse dos resultados dos exames mencionados acima, dividiu o elenco em três grupos homogêneos: 1, 2 e 3. Na corrida que ministrava na subida das Paineiras, aqui no Rio de Janeiro, utilizava-se do sistema de “handcap”. Isto é. Dava a largada para o gruo 3 (menos bem dotadas segundo os exames), minutos depois largava o grupo 2 e minutos depois o grupo 1. Minutos depois soltava o Prof. Claudinho Pinheiro, atualmente assistente técnico da Seleção Brasileira Feminina Adulta, que naquela ocasião ainda era atleta... e um monstro correndo. Todas chegavam no topo da serra ao mesmo tempo; e ninguém podia chegar depois do Claudinho. Resumo, estimulava todas, atendia as necessidades de todas e, por conseguinte, alcançava os objetivos propostos.

2 – Na Pirelli, Santo André, São Paulo, preparador físico, Prof. Renato Meireles, ministrava corrida longas e intervaladas, em uma pista de atletismo para todo o elenco, exceto para um atleta: Fábio Marcelino, Pinha. Tinha 1,96 m e pesava quase cem quilos; compleição larga volumosa massa muscular. E para dificultá-lo mais ainda tinha os pés valgos. Enfim, corrida para ele era um martírio, uma verdadeira tortura. O seu trabalho físico para elevação das capacidades aeróbia/anaeróbica era realizado na bicicleta ergométrica; um exemplo de Adequação.

 

B - Homogeneidade

Na busca para a melhoria das valências específicas é apropriado considerar as potencialidades e insuficiências/deficiências/limitações dos atletas.
O ideal, ideal mesmo é submeter o grupo a avaliação fisioterápica, a fim de identificar potenciais e possíveis insuficiências/deficiências/limitações. Por exemplo. No quadro a seguir, cito alguns problemas que devem ser considerados e resolvidos tendo em vista homgenizar o elenco.

 

 

 

Nota

Faço questão de mencionar com toda ênfase, que não tenho conhecimentos profundo de fisioterapia. O que está mencionado no quadro acima resulta da minha experiência como treinador. São deficiências/insuficiências/limitações que dificultam a execução de movimentos essenciais à execução dos fundamentos da técnica individual.


Diante dos resultados na Avaliação fisioterápica, considero extremamente válido o acompanhamento de fisioterapeuta especializado em esportes e, na medida do possível, em voleibol. A fim de corrigir, minimizar, etc. Pois, repito, a limitação funcional nos membros pode se tornar fator limitante a execução dos complexos fundamentos da técnica individual e, na sequência, no desempenho das ações ofensivas e defensivas. E, por conseguinte, de rendimento global do atleta.

Alguns exemplos.

1 – Recém terminada Superliga Feminina. A atleta Hélia de Sousa, Fofão, consagrada levantadora com quarenta e cinco anos de idade dispôs de trabalho absolutamente individualizado; treinamento físico, técnico-tático e acompanhamento fisioterápico. Ela e o Treinador, Bernardo Resende, Bernardinho, relataram que o trabalho, físico e técnico foi todo voltado a preservá-la ao máximo. Em todos os jogos foi evidente o intuito de poupá-la, tendo em vista tê-la sobretudo na parte final da competição. O que ocorreu; sucesso absoluto na tomada de decisão da Comissão Técnica.

2 – Nas Seleções Brasileiras de Vôlei de Praia, categorias Sub 19 e Sub 21, masculinas e femininas os fisioterapeutas, Dr. Marco Antônio Serquiz e Dr. Vinícius S. Santos, realizaram as avaliações mencionadas acima. Diante dos resultados, estabeleceram um Protocolo de Exercícios a serem executados diariamente por todos os atletas. E individualizaram o procedimento para com cada atleta. E mais, participavam diretamente na sessões de Preparação Física.


No quadro acima em que relaciono as Valências Essenciais e alguns Meios para serem obtidas/melhoradas, tenho como propósito chamar atenção para um aspecto importante: Treinador e o Preparador Físico da equipe devem conceber um Planejamento Global à quatro mãos, de modo que todas as Partes sejam vinculadas.

Muitas equipes de Escolas e de Categorias de Base não dispõem de Preparador Físico. Logo, a tarefa cabe ao treinador; não só Planejamento, mas também a execução.


Preparação Física nas Equipes de Escolas e Categorias de Base.


Vamos raciocinar juntos. Nestas, é fundamental a Aprendizagem, e na continuidade, o Aperfeiçoamento dos Fundamentos da Técnica Individual:


Toque;
Manchete;
Meios de Ataque.

 

Nota

Coloquei como exemplo apenas os fundamentos da técnica relacionados ao Sistema Ofensivo, que vem sendo focalizados nessa série de artigos.

 

Logo, a Preparação Física deve visar a exequibilidade destes fundamentos; de todos os tipos e maneiras. Na minha opinião, o Treinador deve ministrar uma Atividade Polivalente, ou seja, ministrar no mesmo treinamento atividades vinculadas que contribuam para a aquisição/melhoria de mais de uma propriedade. Por exemplo.

Parte 1: prática de exercícios com vista a aquisição ou melhoria de valências indispensáveis a execução dos principais Fundamento da Técnica. Por exemplo:


 

Parte 2: prática de exercícios para Aprendizagem e/ou Aperfeiçoamento dos Fundamentos da Técnica.

Sugiro a seguite Progressão.

Aprendizagem correta dos Fundamentos da Técnica - Execução da Técnica após Deslocamentos Curtos, No quadro a seguir, exemplo de como organizar as etapas.

 

 

Parte 3 - Execução da Técnica em Delocamento.

No quadro a seguir, exemplo de como a Parte 3 pode ser organizada.

 


 

Conclusão.

As valências físicas abordadas são essenciais para a execução dos fundamentos da técnica. É fundamental que Professores, Treinadores e atletas se deem conta de que a execução correta pode ser aperfeiçoada com o apuro das mesmas. Por exemplo.

Flexibilidade.

A Manchete aparentemente é fácil de ser executada. E é mesmo. Só que no jogo ela precisa ser executada de várias maneiras em diferentes circunstâncias. Na foto ao lado, do site da CBV, a atleta da China realiza o moviemento A Fundo. Repare que para tal é necessária a flexibilidade de alguns grupamentos musculares, que tornam possíveis a execução com absoluto equilíbrio.

Em um saque curto. É necessária a flexão das pernas em angulações desconfortáveis das pernas: noventa graus ou menos. Para realizá-la é necessário: flexibilidade da musculatura posterior da perna e anterior da coxa, do tronco sobre a bacia e dos ombros e braços para uma perfeita movimentação dos mesmos. Na foto à direita, do site da CBV, um exemplo no momento da Recepção.

Velocidade.

Na Recepção, a bola chega ligeiramente à direita, à esquerda, à frente ou atrás do ponto que o atleta se posiciona. Logo, é necessária a velocidade em deslocamentos curtos. A fim de posicionar-se rigorosamente de frente.

No Levantamento, o atleta tem que se deslocar, com velocidade máxima, do seu ponto na formação de Recepção para o ponto em que realiza o Levantamento.

No Ataque, a velocidade é requerida sobretudo na Aproximação Final, duas ou três passadas que antecedem o salto para a Cortada, de modo saltar o máximo com absoluto equilíbrio.

Coordenação.

Essencial em praticamente todas as ações do voleibol. Inicialmente, no momento exato de final do deslocamento e a execução do fundamento, Toque, Manchete e Cortada). E na própria execução da ação, Recepção, Levantamento e Ataque.

Deixei para o final a minha opinião. No quadro 1 em que relaciono as Valências Físicas e os respectivos Métodos, aponto que as mesmas podem ser obtidas e/ou melhoras com sessões específicas. Também, associadas ao Treinamento Técnico Individual. O que é a minha preferência.

Importante observar a progressão sugerida: aprendizagem/aperfeiçoamento dos fundamentos da técnica; toque, manchete e cortada... execução após deslocamento curtos... execução após deslocamentos requeridos para a realização das ações; Recepção, Levantamento e Cortada.

Na apresentação do assunto, mencionei que nas equipes de Escolas e de Categorias de Base o objetivo precípuo e a aquisição da técnica. Sugiro a adoção de uma Atividade Polivalente, ou seja, buscar mais objetivos em uma mesma sessão. De modo geral, essas equipes dispõem, quando muito de 120 minutos. Por que não aproveitar a maior parte desse tempo com exercícios para o aprendizagem e aperfeiçoamento?

 

No próximo artigo, vamos focalizar a segunda parte: Aprendizagem e/ou aperfeiçoamento dos Fundamentos da Técnica Individual requeridos ao desempenho das Funções do Jogo: recepção, levantamento e meios de ataque.

Continuação no artigo 53 com a Metodologia - Parte 2

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