JUSTIÇA SEJA FEITA OU JORGE BARROS

Por Prof. Túlio Cícero C. Albuquerque e Prof. Marcos Pinheiro Miranda.

É com muito orgulho que escrevemos esse pequeno texto sobre a especial pessoa de Jorge Barros de Araújo.

Esquecemos demais em nosso país; nossa cultura é gravada por esse hábito. O passado sempre soa pejorativo, sinônimo de ultrapassado. Por conseqüência dessa amnésia social, privilegiamos o culto da mídia, "o que realmente importa".

Winton Marsaris, magnífico músico americano cita em suas aulas itinerantes pelo mundo uma frase que sintetiza o propósito deste texto: "Se a geração atual não ouvir as mais antigas, não será respeitada pela mais nova e outras que surgirão, pois não terão nada para contar".

Exatamente para que sejamos respeitados por essas gerações que estão por vir, é que devemos fazer, senão um tributo, um reparo no "hiato" que a história teima em produzir: esse "hiato" chama-se Jorge Barros de Araújo, ou, para muitos, simplesmente "Jorjão". Esse carioca , professor de Educação Física , educador , treinador, técnico de voleibol, é um dos principais responsáveis pela mudança de atitude e mentalidade em relação ao treinamento desportivo no voleibol e sua metodologia. Se chegamos ao 1º mundo, pelo menos no voleibol , o professor Jorge Barros foi peça fundamental para esse sucesso. Falaremos desse passado recente, um pouco de sua história e alguns fatos que influenciaram a quase todos os profissionais do ramo, direta e indiretamente. Comissões técnicas que a partir da década de 80 tornaram-se vitoriosas, foram compostas por seguidores de sua escola, máxime a do histórico título olímpico de 1992, em Barcelona. Iremos na continuidade deste texto salientar outros fatos históricos pertinentes ao voleibol, relacionados diretamente com Jorge Barros. Tais fatos não devem ser esquecidos, nem agora ou em futuro distante, para o nosso próprio bem e também à edificação de nossa cultura desportiva.

No início dos anos 70, Jorge Barros principiou na Associação Atlética Banco do Brasil (AABB - Lagoa) o seu trabalho no voleibol. Como professor de Educação Física escolar aproveitou aquele espaço para selecionar, entre os seus alunos, aqueles que correspondiam ao perfil por ele desejado. Naquela época o voleibol não gozava do prestígio de hoje. Outros esportes, como basquete e futsal, eram melhores aquinhoados em termos de estrutura pelos clubes. Ao voleibol restava treinar na pior quadra existente, normalmente de cimento e situada fora de ginásios fechados. Esse o contexto que o nosso personagem encontrou para trabalhar. Toda a dificuldade inicial foi arduamente suplantada por uma disciplina própria em relação ao seu compromisso, o de ser treinador de voleibol; essa disciplina decorria de raciocínio empreendido sobre meios e modos através dos quais os resultados que almejava poderiam ser alcançados, a revelar um certo pioneirismo acadêmico, num ramo repleto de praxistas, onde pouco se estudava. Conseqüentemente deu-se a transmissão dessa disciplina (noutros termos, desse conhecimento inovador) para toda comissão que o auxiliava, começando assim a difundir uma metodologia ímpar, que logo formaria uma nova escola de voleibol. Nesse período histórico (início dos anos 70) toda estrutura de treinamento e sua carga de trabalho ainda eram muito pequenas, quase insignificante e os resultados eram relativamente aleatórios. Ganhava o clube que tivesse os melhores jogadores, que o mais das vezes não os formavam. Pois bem, exatamente nesse cenário o professor Jorge Barros percebe a importância da fusão dos fatores: físico, técnico e tático dentro da estratégia do jogo de voleibol. Amplia a carga de trabalho, passa a treinar efetivamente de 5 a 6 dias por semana. Introduz um forte trabalho de musculação específico para o voleibol, além de incrementar outras valências, como a resistência e trabalhos técnicos também específicos. Enfatiza os trabalhos de agilidade, flexibilidade e alongamento, numa época em que apenas uma pequena movimentação articular e uma ínfima corrida eram os modelos existentes. Como abordado, vencer ou não era uma questão de sorte; enfim, ter o jogador certo e a equipe que não o tivesse dificilmente seria vencedora.

Exatamente com Jorge Barros a sorte foi posta de lado e com o aumento da carga, do volume e da qualidade do trabalho, o jogador passou a ser atleta. Esse fato proporcionou a construção de uma serie considerável de ótimos atletas e logo essas quantidade e qualidade começariam a dar resultados, como os títulos invictos nas categorias mirim e infanto-juvenil em 1978. O trabalho desenvolvido culminou com o seu desfecho de ouro. A AABB - Lagoa sagrou-se campeã em todas as categorias existentes no voleibol; enfim: do mirim ao adulto, no ano de 1981. Esse monopólio no voleibol levou o professor Jorge Barros a vôos mais altos, com as seleções estaduais e nacionais.

As seleções são um outro capitulo de toda essa historia. Com ele as seleções passam a ter comissões técnicas cada vez mais afinadas, quase como um corpo único, tal a relação próxima do preparador físico com o assistente técnico e o técnico. Um item muito importante a ser observado é o desenvolvimento do sistema defensivo (bloqueio e posicionamento de defesa). Jorge Barros introduz a ênfase nesse trabalho, valendo lembrar que o voleibol até então obedecia a cultura brasileira de atacar sempre, a mesma do futebol daquela época.Tínhamos grandes atacantes, contudo, nosso sistema de jogo era estéril, por não haver equilíbrio entre os sistemas ofensivo e defensivo. Com a intensificação do treinamento de todo o sistema defensivo e sua relação com o sistema ofensivo, cria-se o verdadeiro voleibol brasileiro, forte no ataque e ágil na defesa, proporcionando um jogo harmonioso em todos os seus segmentos, assim como é conhecido atualmente. O Brasil, mero copiador de escolas estrangeiras, cria sua própria escola e, após o brilhante titulo olímpico em Barcelona, passa a ser referência mundial, copiado por todas as outras tradicionais seleções, que passaram a obter resultados em função desse reconhecimento. O Brasil, independentemente de qualquer classificação em torneios, já possui o seu lugar na estrutura e história do voleibol, não apenas como campeão, mas sim como inovador do esporte, assim como o fez no futebol, criando identidade própria e com isso aproximando sociologicamente o seu povo ao desporto sob comento. Como se não bastasse, Jorge Barros estreitou metodologias aplicadas no masculino às mulheres.

A princípio, quando assumiu o comando da seleção brasileira feminina em meados de 1985, muita crítica se ouviu; as próprias jogadoras não se adaptaram aos novos tempos e diversas pediram dispensa pela não compreensão dessa nova sistemática. Ele redefine o papel da mulher e jogadora, tornando-a atleta, assim como já o fizera no masculino. Os resultados vieram e o Brasil goza de excelente status internacional, graças a essa visão futurista do esporte de alto nível e sua aplicabilidade. Tudo isso possibilitou a estruturação do voleibol nos moldes profissionais. Esse trabalho deu credibilidade ao desporto, possibilitando o seu planejamento a longo prazo e fomentando uma nova classe de trabalhadores: a do atleta de voleibol e com isso a valorização de todo o mercado que gira em torno dele - atleta profissional.

Concluindo, devemos ressaltar não apenas o homem Jorge Barros, personagem deste escrito, mas, sobretudo, o professor, o desportista, que paga um grande "imposto" por estar à frente do seu tempo. Sempre muito incompreendido, muitas vezes de forma maldosa, por força do seu temperamento forte. Interessante que o que naquela época era tido como conduta brutal e ante-social, hoje é natural e molde de atuação para todos os treinadores. Pretextos sempre foram criados com o intuito de desmerecê-lo, contudo, a história e o tempo são maiores que mesquinharias ou recalques profissionais. As pessoas sábias e que realmente viveram a era Jorge Barros, com certeza, entendem, valorizaram e saberão passar à frente essa magnífica história que tanto nos orgulha. Jorge Barros de Araújo, o "Jorjão" possui e possuirá o seu espaço devido, para o bem de nossa memória, cultura desportiva e com certeza, toda justiça a ele será feita. Obrigado Jorjão.

Dos seus alunos, atletas e amigos, Prof. Túlio Cícero C. Albuquerque e Prof. Marcos Pinheiro Miranda.

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