PRINCÍPIOS CIENTÍFICOS, UMA VISÃO EVOLUTIVA.

 por Prof. Edson Figueiredo (*)

 

Considero os Princípios Científicos do Treinamento como sendo as leis básicas e fundamentais para o sucesso de um processo de treinamento. Anos se passaram desde as últimas publicações com citações referentes ao assunto. Sendo assim, passo aqui a minha idéia atualizada destes princípios.

Inicialmente os princípios foram assim relacionados.

1. Princípio da Individualidade Biológica.

2. Princípio da Sobrecarga.

3. Princípio da Adaptação.

4. Princípio da Interdependência - Volume/Intensidade.

5. Princípio da Continuidade.

6. Princípio da Especificidade.

Com visão mais atualizada do desporto de alto rendimento, é possível reavaliá-los, da seguinte maneira.

1. Princípio da Individualidade Psico/Biológica.

- Na Formação do Atleta.

O respeito à individualidade na formação do atleta deve atentar para sobretudo suas características genéticas. Mas também para a bagagem de influências que este indivíduo trás. São vivências positivas e negativas em todos os segmentos de sua vida. A atenção a estes aspectos ajudará na formação do caráter e das tendências comportamentais do futuro atleta.

- No Momento do Atleta.

Um dos vários aspectos que diferenciam profissionais, ligados ao desporto competitivo, é a capacidade e sensibilidade de interpretar um momento, uma reação de um atleta. Antes, durante e após um treinamento e/ou uma competição. Identificar e interpretar características individuais e comportamentais, assim como a melhor maneira de abordar cada qual, quer com estímulos quer com repreensões oportunas; esta propriedade do profissional é fundamental no processo de formação e desenvolvimento global do atleta. Diferentemente do que foi preconizado anteriormente - não levar em conta a interação que deve existir entre o atleta e outros atletas, entre o atleta e o meio, e ele mesmo - a ordem do dia, atual, é a de considerar e valorizar as características psíquicas do mesmo.

 

2. Princípio da Sobrecarga.

2.1. O Momento de Otimização da Carga de Treinamento.

Sempre que estabelecemos um planejamento, devemos estar atentos para o fato de que o mesmo pode e deve ser alterado, tendo em vista a atender vários aspectos que irão fazer parte do processo, tais como: as mudanças de calendário, lesões articulares/musculares, modificações na programação e outras tantas situações comuns no desporto.

A aplicação de cargas e sobrecargas, utilizadas no treinamento, estão sujeitas a fatores diversos. Entre os quais e sobretudo a adaptação pelos atletas às cargas já aplicadas. Embora esteja pré-estabelecido no Planejamento, o momento de aplicar cargas é crucial. Requer consideração de componentes essenciais que, obviamente, contribuem para maximização do aproveitamento do atleta às mesmas e, conseqüentemente, ao treinamento.

Isto é:

- observação da resposta cardíaca;

- a recuperação cardíaca após o esforço;

- o grau de facilidade na execução do estímulo;

- a diminuição do tempo na realização do estímulo, ou seja, a velocidade de execução;

- outros.

São várias as formas de observação e mensuração, todavia não podemos deixar de valorizar a observação visual da fisionomia do atleta. A busca obsessiva da excelência é essencial no treinamento de atletas de alta competitividade. Para isso, é necessário dispor de todo e qualquer elemento - material ou humano - que possa contribuir. Não é sem razão que atualmente observamos a inserção de, entre outros especialistas, bioquímicos em comissões técnicas de equipes; assunto que abordaremos em breve.

A interação de treinadores, preparadores físicos, bioquímicos e outros profissionais reveste o treinamento global de experimentação e cientificidade. Com base nas análises realizadas, por ocasião das sessões do treinamento e períodos específicos da preparação, são obtidos dados bioquímicos relacionados ao efeito de cada treinamento, em relação à reação fisiológica do atleta.

Seja qual for o procedimento utilizado, o correto momento de otimização da carga é componente chave e fundamental para o sucesso de um planejamento. Denomina-se assimilação compensatória o momento no qual o organismo do atleta encontra-se apto a receber novos estímulos. É importante enfatizar: sempre que um atleta recebe uma carga de treinamento suficiente, que provoque adaptações, seu organismo - ato fisiológico decorrente - se recupera e prepara-se para receber estímulo ainda maior/mais acentuado. Talvez até por autodefesa, mas certamente este é o momento de "podermos atacá-lo". Vale ênfase, ainda que repetitiva: nova aplicação de carga deve ocorrer após a fase de restauração ampliada e deverá ser sempre cuidadosamente ministrada, a fim de que não se incorra em conseqüências contraproducentes, tais como lesões, fadiga por "over-training", etc...

2.2. Aspectos Prejudiciais Decorrentes da Não Otimização Das Carga de Treinamento.

Equívocos no procedimento de aplicação de cargas - mencionado no item anterior - podem acarretar prejuízos e/ou contratempos na busca dos objetivos propostos, isto é, o melhor aproveitamento possível para com o treinamento e, conseqüentemente, a obtenção da melhor expectativa de performance possível - física e/ou técnica. Prejuízos com interrupções imprevistas e/ou eventuais na evolução do atleta, de modo geral, ocorrem no momento da aplicação de novas cargas de treinamento ou, por alguma razão, pela não aplicação das mesmas, ou ainda no caso de aplicação de cargas insuficientes que produzam o processo adaptativo decorrente.

2.3. Aspectos Prejudiciais Decorrentes da Precipitação no Momento da Otimização das Cargas de Treinamento.

A aplicação equivocada das cargas pode resultar em sérios prejuízos à programação do treinamento e à saúde do atleta, quer pela aplicação antecipada/precipitada, quer pela dosagem excessiva das mesmas. No caso, a conseqüência é submeter o atleta a processos nocivos ao organismo, em virtude da inadaptação às cargas que podem resultar no que se conhece por "over-training" (veremos a seguir).

 

3. Princípio da Adaptação.

Denomina-se de homeostase, o constante equilíbrio que nosso organismo busca, a todo momento, ao receber um tipo de estímulo. A guisa de exemplo, quando sentimos frio e ele diminui a liberação de calor; quando tomamos um susto e ele eleva os batimentos cardíacos e respiratório, é para compensar um desequilíbrio do sistema nervoso central. O processo se verifica quando da aplicação de estímulos físicos em treinamento. O desequilíbrio da homeostase do organismo por qualquer motivo (físico, psicológico, drogas, ou qualquer outro) desencadeia uma resposta, de acordo com a intensidade deste estímulo. É interessante mencionar que cada organismo reage, de maneiras diferentes, à determinada intensidade do estímulo. Assim teremos:

Intensidade dos Estímulos Respostas do Organismo
- fraco estabilidade da homeostase
- médio pequena, mas significantes alterações no organismo (SAG.)
- muito forte expõe o organismo a danos

 

Ao analisarmos o quadro acima, veremos que uma carga de treinamento extremamente leve não provoca resposta fisiológica significativa. Quando esta carga desencadear processos fisiológicos, tais como alteração discreta da freqüência cardíaca, aumento da freqüência respiratória, aumento da temperatura corporal, etc, consideramos um estímulo médio; um bom exemplo é o que ocorre com o aquecimento. Ao aplicarmos cargas de intensidade forte, elas irão alterar de forma significativa a homeostase e provocará adaptações neste indivíduo; obviamente, o que todo treinador almeja.

Todo treinador deseja, mas todo cuidado é pouco se considerarmos que o exagero pode resultar numa "não adaptação". Este processo de inadaptação do organismo às cargas de treinamento se manifesta geralmente por etapas, mas pode ser imediato e até fatal. Desde o momento da aplicação de determinada carga, nosso atleta desenvolve um processo adaptativo que chamamos de SAG. A abreviatura refere-se à Síndrome de Adaptação Geral do Organismo (SAG). Constitui-se das seguintes etapas:

a) Reação de alarme;

b) Resistência;

  "strain,

c) Exautão;

"virada de fio",
  "over training".

 

A fim de facilitar a compreensão desta fase, imagine você mesmo realizando uma determinada atividade. No decorrer da mesma ocorre um discreto aumento da freqüência cardíaca e respiratória e um aumento da temperatura corporal. É o que ocorre por ocasião do aquecimento. Em outras palavras o aquecimento - estímulo de intensidade fraca - tem como objetivo provocar a estabilidade da homeostase.

Etapa de Resistência. Representada pela capacidade do organismo de responder ao estímulo, com a excelência do movimento técnico e a normalidade das capacidades cardiopulmonar e muscular. Nesta fase é fundamental a capacidade do treinador em encontrar a dosagem apropriada a ser aplicada de acordo com o objetivo a ser alcançado.

Etapa de Exaustão. Caracteriza-se pela perda da capacidade do indivíduo para realizar a atividade ministrada em um treinamento. A exaustão pode ou não ter conseqüências imediatas para o atleta. A imediata é, por exemplo, a perda da eficiência mecânica e física na execução das ações - física e/ou técnica - do treinamento. São conseqüências que se verificam ao longo do processo de treinamento:

- Aumento da freqüência basal;

- Aumento excessivo da freqüência cardíaca quando da execução do treinamento;

- Demora na queda da freqüência, após o esforço;

- Diminuição da capacidade técnica;

- Sensações desagradáveis, como moleza, corpo pesado, etc;

- Diminuição na capacidade de concentração;

- Aparecimento de lesões;

- Irritabilidade;

- Insônia;

- Perda de peso progressiva e nociva à saúde;

- Outros.

 

4) Princípio da Aplicação Evolutiva de Cargas (antigo conceito Volume /Intensidade).

 

a) Em Relação à Etapa da Preparação.

Quando da possibilidade de utilização da tradicional Periodização teremos:

- Fase Básica / Volume;

- Fase Específica / Intensidade;

- Fase Competitiva / Intensidade;

- Fases de Transição / Volume.

 

Considerando a realidade atual do desporto de alta performance, temos plena convicção da que os conhecidos elementos utilizados, por muito tempo, já não se coadunam com a sistemática de competições. O surgimento dos Circuitos e Meetings Nacionais e Internacionais nos conduzem a seguir outro caminho na busca da melhor performance possível para o atleta.

Conhecido como Estruturação de Treinamento, ou Planejamento de Meeting (será abordado futuramente), este tipo de planificação depende de fatores como:

- A avaliação da condição física e técnica do atleta;

- O tempo disponível para o treinamento.

Devido ao quadro atual (citada anteriormente), o item intensidade passa a preponderar durante a temporada competitiva e do treinamento global.

b) Em Relação às Valências Físicas trabalhadas:

Existe vínculo entres as naturezas das valências trabalhas e os fatores intensidade e volume. Por exemplo:

Valências Físicas Fator Predominante
Resistência Aeróbia Volume
Resistência Anaeróbia Intensidade
R.M.L. Volume
Velocidade Intensidade
Força Intensidade

 

5) Princípio da Continuidade.

Componente de grande importância no treinamento global. Tanto durante as etapas do treinamento, quanto ao longo de toda a temporada de competições. É imperativo o acompanhamento, periódico, metódico e minucioso, pela comissão técnica, da condição do atleta. É absolutamente necessário que a comissão técnica promova elevações e quedas - e estas, atualmente, podem ser mensuradas - nos níveis de condicionamento dos atletas.

A queda induzida/conduzida da condição do atleta ao final das etapas e/ou do planejamento possibilita retomadas do trabalho em níveis tais que facilitarão a evolução contínua da performance (Treinamento de Longo Prazo).

 

6) Princípio da Especificidade.

Mais do que nunca, em virtude da atual programação de competições de alto nível - realizadas quase que em toda a temporada (meetings e circuitos) - a atenção com o fator especificidade, nas sessões do treinamento global, é fundamental. Assim sendo, o Treinamento Orgânico Integrado (Jorge Barros, Jorjão) - apresentado no site www.justvolleyball.com.br - é método que atende, de modo pragmático, a esta demanda atual. O locais, os materiais, os exercícios técnicos/táticos, as valências físicas treinadas, etc... devem se aproximar ao máximo da realidade competitiva. O ganho de tempo e a eficiência evolutiva da performance final, obviamente, são nossos objetivos.

(*) - O Prof. Edson Figueiredo é especializado em Treinamento Desportivo, Coordenador do Curso de Pós Graduação em Ciência da Performance Humana da Universidade Gama Filho, foi· Preparador Físico da Seleção Brasileira de Basquetebol 1994 / 1999 e Bolsista do C.O.I. (Solidariedade Olímpica) - U.S.A 1993/1994.

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