A Mulher Atleta.

por Prof. Edson Figueiredo (*)

 

Vamos fazer uma breve abordagem científica das principais diferenças entre o atleta homem e a atleta mulher. Focalizaremos diversos aspectos - não necessariamente ligados diretamente ao voleibol - de grande utilidade para os profissionais que atuam com atletas dos dois sexos.

Introdução.

Já que vamos fazer uma análise sobre a mulher atleta, torna-se importante fazer considerações sobre o desempenho de atletas do sexo feminino nas últimas décadas. Observa-se - quando da realização de competições de grande porte como Jogos Olímpicos e Campeonatos Mundiais - muitos comentários feitos na mídia com relação à evolução das mulheres, em relação aos homens. Outro aspecto muito comentado refere-se ao aumento do número de participantes mulheres em determinadas modalidades nas quais, há pouco tempo, tinham participação pouco significativa. Chama também a atenção o aumento considerável de atletas do sexo feminino a cada evento.

A velocidade desse crescimento é, por vezes, até comparada com a rapidez com a qual os grandes recordes esportivos vêm caindo. Entretanto, está na hora de recebermos as informações completas e corretas. É certo que os dados mencionados são verídicos:

- a participação delas tem aumentado;

- suas marcas melhoram em progressão acentuada;

- as quebras dos recordes, nos últimos ciclos olímpicos, têm ocorrido de maneira muito mais significativa, do que às dos homens.

Porém, nos aprofundaremos mais nesse assunto para melhor compreendermos essa evolução. Este processo passa a ser mais fácil de ser entendido, na medida em que observamos fatos históricos. Como exemplo, podemos citar a proibição que existia na participação das mulheres em determinadas modalidades esportivas - por machismo ou, talvez, devido à simples falta de conhecimento científico das suas reais capacidades e diferenciações, quando comparadas à fisiologia do homem. Vale lembrar que a participação da mulher em provas de maratona nos Jogos Olímpicos somente foi oficializada em 1984, em prova vencida pela portuguesa Rosa Mota.

Com esta "não participação" da mulher em algumas competições, foi possível chegar ao conhecimento científico das suas reais capacidades e o motivo delas apresentarem menor capacidade de desempenho, em relação aos homens, em algumas modalidades, e desempenho melhor em outras; ocorre o que podemos chamar de "vácuo da evolução científica esportiva".

Principais diferenças.

- A mulher possui ossos mais leves do que o homem.

- Na mulher ocorre uma maturação mais rápida do esqueleto, com um fechamento precoce dos discos de crescimento - por esta razão, em geral, a mulher possui menor estatura do que o homem.

- Já ao nascer, a mulher apresenta um desenvolvimento ósseo duas semanas mais adiantado do que o homem.

- O comprimento do tronco da mulher equivale a 38% do corpo. No homem, equivale a 36%. Isso propicia à mulher um deslocamento do centro de gravidade para baixo, o que acarreta influência negativa nas corridas e saltos.

- A mulher apresenta no quadril uma angulação em forma de "X". A maior mobilidade desta articulação, favorece práticas como ginástica artística e rítmica desportiva.

- Quando observamos as fibras musculares e o tamanho destas, verificamos que em média elas são 30% menores nas mulheres do que nos homens.

- Se observarmos as possibilidades máximas na distribuição das fibras, analisando fibras de contração rápida e fibras de contração lenta, teremos para os homens 98% de fibras lentas e 87% de fibras rápidas. Para as mulheres, temos registros de 72% de oxidativas (aeróbias) e 63% de fibras de contração imediata (anaeróbias).

- Em função dessas afirmativas, fica fácil entender porque as mulheres possuem 50% a menos de força e potência muscular nos membros superiores, quando comparadas com às dos homens. Contudo, nos membros inferiores estes valores são de apenas 25% a 30% a menos de força.

- Existe variação na quantidade de fibras existentes em homens e mulheres. Nos homens, a variação é entre 280.000/4000.000. Nas mulheres, 240.000/380.000. Considerando estes números é possível concluir que as mulheres podem ter mais fibras do que os homens.

- Após observamos que a quantidade de fibras é praticamente igual nos dois sexos, é possível afirmam que o consumo de oxigênio para estas fibras é também igual.

- A mulher possui coração menor, não somente no tamanho, mas também com relação às suas cavidades internas, que também são menores quando comparadas com as dos homens.

- Com relação à quantidade de sangue circulante, nas mulheres é menor.

- Por possuir menos sangue, logicamente possui menos quantidade de hemoglobina,- combustível fundamental para atividades que necessitam do sistema oxidativo.

- Para compensar a desvantagem anterior, elas possuem uma maior capacidade de oxidar gordura - importante combustível para a manutenção do trabalho aeróbio.

- A freqüência respiratória da mulher é mais acentuada do que a do homem, em decorrência de seus componentes respiratórios serem menores (fossas nasais, traquéia e brônquios).

- A menor capacidade aeróbia da mulher treinada e não treinada quando comparada com o homem resulta - unicamente - de seu menor consumo de Oxigênio, decorrente da menor massa muscular.

- Em contrapartida, as mulheres tem incomparável capacidade de suportar situações desconfortáveis, como por exemplo, a dor muscular proveniente de atividades em anaerobiose.

- Comprovadamente o percentual de gordura tem relação com o ciclo menstrual. Por diversas vezes observamos relatos de casos em que este percentual ficou abaixo de 10% e houve interrupção do ciclo.

- A afirmativa acima, adicionada a outros fatores exógenos, justifica a observação de que as atletas de ginástica olímpica (artística), "são tão meninas!".

- Com relação à valência física velocidade, a mulher só perde para o homem em virtude da menor massa muscular, ou seja, pelo fator força.

- Comparando níveis de flexibilidade, elas levam vantagem. Nelas, a densidade dos tecidos é menor e o potencial de estiramento, de tendões, ligamentos e músculos, maior.

- A capacidade de desempenho muscular na valência força é, como já mencionado, favorável aos homens não só devido à maior massa muscular, mas também em função da atividade hormonal.

Espero ter, com este artigo, esclarecido dúvidas e favorecido de alguma maneira treinadores, preparadores e atletas. O objetivo é alertar a todos para os cuidados que devem ser tomados quando estamos aplicando cargas de treinamento, avaliando resultados, ou exigindo performances.

(*) - O Prof. Edson Figueiredo é especializado em Treinamento Desportivo, Coordenador do Curso de Pós Graduação em Ciência da Performance Humana da Universidade Gama Filho, foi· Preparador Físico da Seleção Brasileira de Basquetebol 1994 / 1999 e Bolsista do C.O.I. (Solidariedade Olímpica) - U.S.A 1993/1994.

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