Atletas com Autonomia aprendem a construir Resultados

Relato de experiência da preparação específica de inteligência para o jogo, realizado com a seleção brasileira feminina juvenil de voleibol, em 2001, pelos:

Prof. Antonio Rizola,

Prof. Adriano de Souzaii,

Prof. Ms. Alcides Scaglia

Prof. Dr. Paulo Roberto de Oliveiraiv UNICAMP, Fac. Integradas Módulo, IASP, Centro Univ. N. Sra. do Patrocínio.

Resumo

Este estudo é apresentado em forma de relato de experiência. O fim é mostrar como que foi possível no ano de 2001, durante a preparação da Seleção Brasileira de Voleibol Juvenil Feminina, visando o Campeonato Mundial da categoria, proporcionar às atletas e à Comissão Técnica um instrumento para o desenvolvimento da inteligência específica, tendo em vista a utilização em jogos pelas atletas. Foram apresentadas a elas, algumas questões relacionadas ao desempenho de sua equipe e de auto desempenho. Estas, a partir de então, iniciavam a construção, de acordo com os estudos revisados, de uma maior inteligência para as partidas de voleibol e formas de resolver problemas que aparecem em cada nova ação de jogo.

Neste relato apresentamos uma revisão bibliográfica sobre a de resolução de problemas em jogo real. Demonstramos nossos pensamentos de como proporcionar possibilidades para o desenvolvimento de atletas com maior autonomia e responsabilidade, tendo em vista a obtenção de resultados. Foi verificado que a comunicação entre a comissão técnica e atletas, em assuntos relevantes sobre as estratégias e táticas de jogo, também foram melhoradas com a aplicação dos questionamentos. Acredita-se que fazer refletir e pensar, sobre as possibilidades de jogos passados e futuros e ter como externar idéias com liberdade, possam colaborar para o desenvolvimento de novas gerações de atletas com uma melhor qualidade de resolução de problemas dentro do jogo real. Palavras chave: treinamento esportivo, pedagogia dos esportes, inteligência para o jogo.

Introdução

Este artigo é resultado de um trabalho e estudo realizado durante a preparação da Seleção Brasileira de Voleibol Juvenil Feminina, que participou e sagrou-se campeã do Campeonato Mundial da categoria, em 2001.

Durante uma excursão à Europa, foram realizados jogos preparatórios. Nesta ocasião foi elaborado um instrumento. A intenção e a relevância do instrumento, utilizado para este estudo, foi de ressaltar e aumentar a capacidade cognitiva e motivacional de cada atleta da equipe, já que os esportes coletivos têm um grau de imprevisibilidade muito alto durante as ações de competição dentro de uma partida entre dois oponentes em busca da vitória (Oliveira e Tavares, 1996).

O voleibol, como outros esportes coletivos e individuais, têm como objetivo vencer um oponente imediato e ativo para se alcançar um resultado. É um jogo que exige adaptações, antes e durante as partidas, quando se enfrenta um adversário. Desta forma, acreditamos que as instruções fornecidas pelos técnicos, antes dos confrontos, não são suficientes para que se possa atingir a vitória. Modificações e adaptações estratégicas e táticas deverão ser feitas durante o decorrer do jogo. No período de Março de 1998 a Março de 2000, a Seleção sagrou-se Campeã Sul-americana infanto-juvenil e juvenil, sendo também vice Campeã Mundial infanto-juvenil. A Comissão Técnica da equipe quis dar mais um passo: proporcionar às suas atletas maior autonomia em suas performances individuais e de equipe (Kidman, 2001).

Para isto, passou a incentivá-las a refletirem sobre os jogos disputados. Pensar sobre atuações individuas e de grupo, positivas e negativas. O objetivo; despetar - sempre - a refleção sobre as mesmas. Um dos pontos específicos que se atinge quando existe dentro de uma equipe a abertura para que os indivíduos reflitam e conversem sobre como construir resultados de performance, que objetivem a alcançar resultados positivos é o fator de melhora na tomada de decisões por parte dos atletas (Kidman, 2001) e a percepção para os problemas reais que acontecem durante as partidas (Graça in Graça e Oliveira, 1998). Faz-se com que elas possam criar respostas e realmente fazer parte da solução esperada como meio de vencer e pontuar.

Os esportes são permeados por tomadas de decisões, o tempo todo, durante as partidas. Não é somente a técnica, a tática ou a preparação física que trazem resultados, mas a capacidade dos atletas de tomarem a decisão certa (resposta), no momento certo, para pontuar. Isto significa habilidade cognitiva e psicológica de responder a estímulos diferentes, com respostas também diferentes, a todo momento (Tavares in Graça e Oliveira, 1998). Assim, entendemos que não existe somente uma técnica correta para se realizar ações dentro dos jogos e sim a busca de respostas corretas (Graça in Graça e Oliveira, 1998).

O atleta com responsabilidade em sua aprendizagem.

Tem se discutido a importância dos aspectos de tomada de decisão individual e coletiva durante as partidas de jogos coletivos. Os estudos científicos e relatos de experiência têm demonstrado que é possível ter ainda mais avanços em performances, inclusive e principalmente em esportes de jogos coletivos, que não dependem tanto de aparatos e instrumentos tecnológicos, mas sim do desenvolvimento humano (Graça in Graça e Oliveira, 1998), (Kidman, 2001), (Griffin e Mitchell, 1998). No entanto, os esportes têm sido desenvolvidos e ensinados pura e simplesmente através de um modelo que hoje chamamos de tradicional (Griffin e Mitchel, 1998), que se traduz em ensinar as técnicas dos esportes para as crianças e jovens. Esta aproximação metodológica é galgada em:

1- repetições de gestos esportivos (chamados de gestos técnicos);

2- sessões de treinamento que têm o jogo como uma mínima parte de seu tempo;

3- técnicos ou professores que se dizem detentores de todo conhecimento;

4- alunos e atletas iniciantes que não são incentivados a criar dentro dos jogos e sim repetir o que o técnico propõe;

5- alunos e atletas iniciantes que deixam o esporte sem saber sobre o mesmo, mas sabendo muito sobre técnicas;

6- professores e técnicos que diminuem as possibilidades dos esportes, por não deixarem seus alunos ou atletas atuarem como criadores do jogo.

Os jogos não são somente constituídos de técnicas e sim, também, de possibilidades táticas e estratégicas (Tavares in Graça e Oliveira, 1998), que necessitam de inteligência para resoluções de problemas. A filosofia de treinamento através de "desenvolvimento de atletas inteligentes" (Kidman, 2001), que busca o desenvolvimento de atletas jovens ou adultos com capacidade de desempenhar habilidades, quase nunca valorizadas dentro dos esportes como:

1- percepção;

2- tomada de decisão;

3- resolução de problemas táticos;

4- responsabilidade de atuação em seu desenvolvimento técnico;

5- responsabilidade em sua atuação e resolução de problemas táticos e estratégicos.

Com a compreensão de que realmente o desenvolvimento destas qualidades é de suma importância para a construção de uma equipe vitoriosa é que desenvolvemos o instrumento de atuação com as atletas da Seleção Brasileira de Voleibol Juvenil Feminina. Desenvolver suas capacidade de compreender melhor o jogo e sua inteligência específica, solucionar problemas reais em quadra com e sem a ajuda do técnico.

A proposta de trabalho.

Conforme as necessidades relacionadas pela Comissão Técnica da Seleção Brasileira, e seus objetivos, colocamos em prática um questionário. O objetivo era o de fazer com que as atletas refletissem sobre suas performances e construíssem, individualmente e em grupo, formas de melhor atuar. Com a criação de estratégias e soluções para os problemas já enfrentados e os que possivelmente surgiriam durante as partidas. Elas passaram por toda uma preparação, de 14 jogos, na Europa, respondendo questões pré-formuladas, após cada um dos jogos e, também, outras questões criadas através de estudos prévios realizados pela comissão técnica, feitas durante treinamentos de simulação de jogos. Estas questões eram de ordem simples e de ordem complexa (Kidman, 2001). As questões de ordem simples são baseadas em perguntas com os seguintes auxiliares: "o que?", "onde?", "qual?", e "quem?". Já as questões de ordem complexas envolvem um nível abstrato de pensamento, de síntese, avaliação e desenvolve o conhecimento das atletas. São precedidas pelos seguintes auxiliares: "como?", "de que maneira?", "por que?", e "quando?".

A aplicação do método.

Sabíamos que estávamos trabalhando com atletas especializadas em jogar voleibol, que as mesmas já haviam colocado em seus currículos uma série de horas de jogos oficiais por clubes e Seleções Regionais e Nacionais Foi então que elaboramos os seguintes questionários que denominamos: "Questionário de Desenvolvimento da Inteligência para o Jogo". Um modelo para ser respondido após jogos em que ocorreram vitórias e um outro para os que ocorreram derrotas.

Os quadros, em anexo, trazem na íntegra os dois modelos. Estes dois questionários foram aplicados da seguinte forma. Para que os questionários de vitórias e derrotas tenham somente e não mais que as respostas das próprias atletas, terá que ser respondido após os jogos, sem a intervenção do técnico, para que as atletas pensem e reflitam, já que suas opiniões serão parte da memória das mesmas. A comissão técnica, a partir dos questionários, fazia suas análises e criava um ambiente de construção e criação de conhecimento e inteligência para o jogo.

Relato dos resultados.

- Todas as atletas passaram a discutir o jogo como um todo, nas alternativas ofensivas e defensivas.

- Uma auto-confiança maior em todas, uma demonstração de todas são capazes de compreender o jogo, e não executar fundamentos.

- A partir dos questionários, a construção da equipe tornou-se mais fácil pela própria tomada de decisão das atletas em relação ao jogo; houve uma maior compreensão das orientações táticas e das estratégias de jogo.

- Toda parte de coordenação da equipe foi dividida com as atletas que passaram a colaborar na elaboração da estratégia para cada partida, entendendo assim quais eram os objetivos em cada jogo e sentindo-se parte integrante do processo tático.

- No inicio do trabalho houve uma certa preocupação das atletas em responder os questionários. Esta preocupação foi notada por nós e tivemos o cuidado de, em nenhum momento, comentar ou expor ao grupo seus erros, pelo contrario, procurávamos extrair sua visão do jogo e utilizar estas informações para toda a equipe, valorizando a participação de cada uma.

- É importante salientar que houve uma evolução a cada avaliação. Os tipos de respostas e a objetividade das mesmas, nos ajudou em muito nas elaborações dos planos táticos para jogos.

- Desde o primeiro momento as respostas das atletas nos deram uma visão clara de como elas compreendiam o jogo e, ao nosso ver, este foi um fator importante dos questionários. Nos deram subsídios para nosso trabalho individualizado sobre o conhecimento do jogo.

- Temos a certeza que nossa equipe era mais apta do que as outras na resolução de problemas dentro do jogo. Não era somente a execução do que fora treinado prevalecia e sim, principalmente, a resolução do inesperado; momentos do jogo em que uma jogadora deve decidir sua ação dentro do seu conhecimento e preparação anterior.

- A avaliação feita pelas atletas representava, na maioria das vezes, suas aspirações para a próxima apresentação. Portanto, mais do que avaliar seu rendimento, ela estava traçando objetivos para sua melhora e evolução.

Este fato proporcionou, à Comissão Técnica, facilidade maior na condução do grupo, que se motivou, uma vez que se conhecia melhor, e era mais seguro do que poderia acontecer.

Conclusão.

Após este trabalho realizado e contabilizando seus resultados entre as atletas e comissão técnica, acreditamos na necessidade de haver um avanço da compreensão entre os técnicos esportistas, que é possível dar um salto de qualidade estratégica e tática em suas equipes e que isso pode ser feito principalmente quando existe participação dos atletas.

Assim, foi apresentado neste artigo, estudos e referências que mostram a possibilidade de desenvolvimento de esportistas mais inteligentes para o jogo. Que isto pode ser feito desde quando estes são ainda jovens (Montagner, Scaglia e Souza, 2002). E que os treinos e preparações especiais com bola necessitam de uma revisão de métodos, pois talvez assim é que se conseguirá mais um passo na preparação e atuação de equipes (Scaglia, Souza in Picollo, 1999).

Esperamos que os estudos possam continuar e que mais técnicos e professores se interessem em desenvolver seus trabalhos profissionais com várias filosofias de treinamento tático, técnico e estratégico. Cada professor ou técnico que ler este artigo poderá ter notado algo de semelhante ao que já vêem fazendo há anos. Por isso é que dizemos: tente aplicar o que você gostou e se assemelhou, faça isso gradativamente e procure anotar e verificar a mudança de qualidade de jogo de seus atletas. Talvez seja válido.

Bibliografia GRIFFIN, L. L., MITCHELL, S. A., OSLIN, J. L. Teaching Sport Concepts and Skill: A tactical games approach. Champaing: Human Kinetics, 1997.

GRAÇA, A. OLIVEIRA, J. (Org.) O ensino dos jogos desportivos. Faculdade de Ciências do Desporto e da Educação Física. Universidade do Porto, 1995.

KIDMAN L. Developing decision makers: An empowerment Approach to Coaching. Innovative, New Zeland, 2001.

MONTAGNER, P. C., SCAGLIA, A. J., SOUZA, A. J. Competicão Pedagógica, no prelo, 2002. Guarulhos - SO - FMU - FIAM FAAM, 1997.

SCAGLIA, A. J. Escola de futebol: uma prática pedagógica. In NISTA PICCOLO, V. Pedagogia dos esportes. Campinas: Papirus, 1999.

SOUZA, A. J. É jogando que se aprende: o caso do voleibol. In NISTA PICCOLO, V. Pedagogia dos esportes. Campinas: Papirus, 1999.

Voltar ao Menu de Crônicas