Motivando Campeões - Parte I

por Evandro Mota (*)

Estou tendo o privilégio de colaborar pela terceira vez com a preparação da nossa Seleção de futebol. As minhas outras participações foram nas Copas de 94 e 98. A contribuição que desenvolvo é visando a Mobilização de Grupo. Sou mais um profissional que tem como objetivo contribuir para que cada atleta esteja bem e em condições de fazer o seu melhor dentro de campo. A pergunta que mais foi feita para a Comissão Técnica da Seleção Brasileira de futebol neste início de preparação para a nossa caminhada rumo ao Hexacampeonato: como motivar atletas que já têm fama, dinheiro, prestígio e já são os Campeões mundiais?

Uma coisa básica sobre motivação, e que as pessoas percebem naturalmente, é que as necessidades satisfeitas não motivam; somente as necessidades insatisfeitas motivam as pessoas. Se você receber um convite para ir ao melhor restaurante da cidade após ter almoçado esta proposta não terá o mesmo efeito se o convite tivesse acontecido antes de você ter feito a sua refeição. Da mesma forma não adianta querer motivar pessoas que já estão experimentando as coisas que estão sendo prometidas como recompensa. Então o que fazer?

Num trabalho de Mobilização de Grupo que visa à melhoria de performance e a obtenção de melhores resultados é fundamental identificar os denominadores comuns existentes entre os participantes. Cada um dos participantes são pessoas diferentes com origens e vivências diferentes, mas com alguns traços bem semelhantes. A partir do momento que esses denominadores comuns são identificados fica mais fácil traçar algumas estratégias para mobilizar o grupo na direção da excelência (fazer o seu melhor cada vez melhor).

Uma das estratégias que uso para mobilizá-los é utilização de modelos de excelência para ilustrar a postura e os procedimentos que são utilizados pelos grandes Campeões e que acabam inspirando-os a buscar a excelência e o melhor desempenho possível. Para que esta estratégia funcione é fundamental ser feito uma leitura correta e atualizada do momento em que o trabalho é desenvolvido. Os modelos escolhidos, para servirem mesmo como exemplos inspiradores, precisam ser de pessoas admiradas por todos e consideradas sinônimos de vitórias, prestígio e sucesso.

Para a Copa do Mundo de 1994 o modelo que escolhi, e que todos os conceitos de excelência apresentados para os atletas estavam apoiados, foi o Ayrton Senna da Silva. No ano de 1993 as corridas de Fórmula 1 estavam mais populares do que o futebol por causa do incrível desempenho de Senna. A minha primeira palestra para os jogadores estava marcada para o dia 17 de maio de 94. Com um mês de antecedência todo o material já estava pronto e baseado nas "pistas" deixadas pelo Senna. No dia 1° de maio aquele terrível acidente levou o nosso grande Campeão. Foi aquela comoção geral e a tristeza tomou conta de todos os brasileiros que admiravam aquele "Silva" que vivia nos lembrando que vitórias e grandes conquistam poderiam ser alcançadas com trabalho, dedicação e uma inabalável vontade de conquistar os nossos sonhos. A minha grande dúvida na época era como motivar nossos atletas lembrando a eles que o Senna já não estava mais entre nós? Numa conversa com o Carlos Alberto Parreira, nosso técnico naquela Copa, ele me contou que no último contato que o Senna teve com a Comissão Técnica daquela Seleção ele, brincando disse:

"Este ano pelo menos um de nós vai ter que dar uma alegria para o nosso povo. Ou eu, ou vocês vão ser tetracampeões."

Quando ele me contou isso vi que ali estava o grande "gancho" para poder utilizar todo o material preparado sem causar tristezas e abatimentos nos atletas com a lembrança da morte do Senna. Na abertura da minha palestra com eles contei o que o Parreira havia me narrado sobre o último contato do Senna com a Comissão Técnica da Seleção e concluí:

"De onde estiver, se ele puder fazer alguma coisa para a nossa conquista, podem ter certeza que ele o fará. Mas aqui em baixo somente nós podemos dar algum tetracampeonato para o povo brasileiro e é isso que vamos começar a conquistar a partir de agora".

Isso foi tão marcante para aquele grupo que após a conquista do Tetra foi aberta, ainda no gramado, uma faixa com a inscrição: Valeu Senna! Aceleramos juntos! Atualmente, na nova sede da CBF, várias salas de integrantes da atual Comissão Técnica têm fotos do Ayrton Senna que servem para lembrar que limites e recordes foram feitos para serem superados.

(*) Evandro Mota é engenheiro, escritor, consultor e requisitado palestrante nas áreas: motivacional, de auto-gestão e de melhoria de performance. Já ministrou mais de 600 Cursos na área de desenvolvimento pessoal para cerca de 100 mil pessoas. Mota já conduziu centenas de seminários, palestras, cursos, tele-conferências e treinamentos na área educacional, empresarial e esportiva. É autor dos livros: Algumas Maneiras de Fazer Alguém Feliz (7ª Edição - Ed. Luz), O Prazer da Vitória (4ª Edição - Ed. Gente), Nada do que Foi Será... e Escolhas e Conseqüências. Foi atleta de basquetebol (Botafogo F.R.), futebol de praia, futebol de campo e futsal. Terminando o seu curso de engenharia e disputando o Campeonato Carioca de futsal (C.R. Vasco da Gama) ele teve acesso ao que mais tarde ficou conhecido como Qualidade Total e teve a idéia de aplicar tais conhecimentos em si mesmo como atleta. Os resultados foram surpreendentes e logo depois outros atletas começaram a lhe procurar para compartilhar as suas experiências bem sucedidas e desde então não parou mais de atuar na área de treinamentos. Visite a página www.evandromota.com.br

Na continuação, Evandro Mota fala dos exemplos utilizados na Copas de 98 e os que está utilizando na Preparação da Seleção Brasileira de Futebol que está disputando as Eliminatórias: im-per-dí-vel!!!

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