Resistência para o Voleibol

por Renato Meireles (*).

No artigo sobre preparação física em que menciono valências orgânicas indispensáveis para o atleta de voleibol, apresento um série de vantagens que uma boa capacidade aeróbia propicia ao mesmo; tanto no aproveitamento do treinamento global, quanto na sua performance em jogos e campeonatos. Em nossas conversas sobre a preparação física, o Professor Renato Meirelles chamou minha atenção para o fato de que poderia acrescentar alguns subsídios para enriquecer o assunto. É o conteúdo desta crônica, que apresento com enorme satisfação.

Temos como conhecimento básico: é requerida, ao praticante de modalidades esportivas, boa capacidade aeróbia. Esse paradigma é, muitas vezes, levado em consideração, também, para esportes com característica anaeróbia, tal como o voleibol. No entanto, não podemos dizer que a afirmativa seja errada. Existem dados que constatam atletas de alto nível internacional praticando o voleibol com facilidade e têm VO2 máximos - fórmula de mensurar a capacidade aeróbia - em níveis abaixo da média para pessoas comuns. Como explicar então? Dar essa explicação é o objetivo deste artigo.

É sabido que qualquer atleta que tenha boa capacidade aeróbia terá algumas facilidades, em razão da chegada mais rápida dos nutrientes ao tecido muscular. Também, a saída dos metabólicos, decorrentes do exercício físico, será facilitada. Isso ocorre, em razão de um aumento da vascularização periférica, ou seja, em virtude de termos muitos canais que levam e trazem o sangue até o tecido. Isso facilita, então, todos os processos de recuperação - imediatos ou longo prazo - e no descanso do atleta após treinamentos. Para que a recuperação, em longo prazo, aconteça a contento, teríamos que falar sobre nutrição esportiva, que será tema de outro artigo.

Outra adaptação fisiológica que acontece é o aumento da diferença arterio-venosa, ou seja, o tecido fica com maior capacidade de trocar um sangue oxigenado e com mais nutrientes, pelo sangue "exaurido" em decorrência do efeito causado pelo exercício. Como se não bastasse, sabemos que as atividades aeróbias ainda têm uma outra adaptação importante: maior capacidade de transporte de oxigênio e nutrientes do sangue. É lícito, supor, então, que um atleta com boa nutrição, com maior vascularização, com diferença arterio-venosa aumentada e com maior capacidade de transporte de nutrientes, tende a ter o processo de recuperação do tecido muscular facilitado.

Outro ponto importante é sabermos que um atleta de voleibol com potência aeróbia ou capacidade aeróbia mais elevada terá um coração mais forte. Passando dos termos da fisiologia para uma linguagem mais coloquial: se tivermos uma bomba mais possante, poderemos bombear mais água de um recipiente. No corpo humano ocorre o mesmo. O coração mais forte - graças à adaptação do tecido muscular do coração ao esforço aeróbio - enviará mais sangue a cada bombeada. Logo, se este sangue estiver com os nutrientes adequados, teremos então um processo de recuperação acelerada. Vamos raciocinar levando em consideração à recuperação imediata do esforço realizado no treinamento ou durante uma disputa de um "rally" mais longo. Se houver uma dívida de oxigênio - em função deste esforço intenso - e a nossa bomba for mais potente, esta dívida será paga com número menor de bombeadas.

Vamos ver de que maneira isso tudo influi na performance. Quando estamos com a freqüência cardíaca aumentada, devido a um esforço intenso, o nosso poder de concentração tende cair. Se conseguirmos então reduzir essa freqüência cardíaca de forma mais rápida, teremos um ganho, no mínimo, de concentração, para a execução da ação seguinte. O aumento da capacidade aeróbia, apesar de trazer as facilidades descritas anteriormente, não necessariamente fornece, ao atleta, a capacidade muscular para executar mais vezes o mesmo gesto desportivo. A não ser que a mecânica do movimento da atividade - como, por exemplo, a repetição de fundamentos da técnica - seja similar ao gestual utilizado para o desenvolvimento da potência aeróbia. Nesta brecha da fisiologia está a explicação para os atletas que conseguem praticar a modalidade desportiva em excelente nível, mesmo sem ter a capacidade aeróbia, pelo menos, em nível médio.

(*) - O Prof. Renato Meireles é preparador físico da Seleção Brasileira Feminina. Dirige, também, empresa - própria - de Treinamento Personalizado, para indivíduos não desportistas, maratonistas, triatletas, etc...

Voltar ao Menu de Crônicas