Estratégias/Táticas - Artigo 91

4 - Discernimento Tático Individual, a fim de tomar decisões adequadas no Bloqueio.

Em continuidade aos artigos 89 e 90, nos quais foram mencionados elementos importantes relacionados à técnica individual, que contribuem para os bloqueadores se desincumbirem de suas atribuições, considero importante focalizar um outro de grande importância que, a meu ver, pode ser item para grande evolução. Refiro-me ao Discernimento Tático Individual.

A voleibol atual passou por constantes evoluções ao longo da história. É cada vez mais difícil obter-se rendimento muito mais elevado que os atuais, em qualquer das funções do jogo. Os treinadores buscam obsessivamente:

- o aperfeiçoamento das capacidades físicas e técnica de seus jogadores;

-  a eficiência na execução de cada função;

- tornar suas equipes mais competitivas, ou melhor, competitivas ao nível das competições que disputará.

 

Diante da grande evolução é muito difícil uma equipe conseguir, em curto prazo, por exemplo:


- melhorar o rendimento habitual (médio) em 20% com o Saque;


- rendimento 20% melhor com seu Sistema Ofensivo (recepção, levantamento e ataque);


- rendimento 20% melhor com seu Sistema Defensivo (bloqueio-defesa);


- rendimento 20% melhor, nas transições de um sistema para o outro (do defensivo para o ofensivo, do ofensivo para o defensivo.

 

Nota


Importante salientar: em jogos disputados por equipes de competitividade semelhante. E em jogos decisivos dos principais campeonatos.

 

Diante desse raciocínio, de que maneira pode ser possível melhorar significativamente, rendimentos? Não tenho dúvida de que treinadores em todo o mundo estão se empenhando para descobrir meios de se obter qualquer percentual de melhoria em itens mencionados acima.


Tenho uma sugestão. Investir fortemente na capacidade que o atleta deve ter para se comportar estratégia e inteligentemente durante o jogo. Ou seja:

- de entender suas atribuições;

- escolher seus procedimentos;

- maximizar suas qualidades e minimizar suas deficiências.


No decorrer da apresentação deste trabalho sobre o Bloqueio, foi mencionada, com toda ênfase, a velocidade com que são realizadas as Combinações de Ataque.
Antes de abordar o Bloqueio no confronto com o ataque da equipe adversária, considero importante tecer considerações em relação ao fator tempo no voleibol.


- No Saque o atleta tem tempo para se preparar, pensar e executar.

- Na Recepção, há tempo para se posicionar, se preparar e executar.

- Na Ação Ofensiva, sobretudo no “side-out”, a primeira dificuldade é a de dominar a bola pela recepção. Uma vez dominada é possível, há tempo:

a - ao levantador, se preparar (deslocar e se posicionar em relação à bola), pensar e executar o levantamento;

b - aos atacantes, se prepararem (deslocarem para os pontos em fazem suas aproximações finais), aguardar o levantamento e partir para o ataque.

 

Nas Ações Defensivas, ao contrário, o adversário tem a bola. A equipe que saca tem tempo para se pprogramar antes de o Saque ser executado. E entre a recepção e o contato da bola pelo levantador, este muito menor. Ou seja:

- defensores têm tempo para se posicionarem;

- os bloqueadores têm tempo de se posicionarem de acordo com a estratégia ofensiva da equipe adversária.

Isso, na Primeira Ação. E nas demais? Isto é, quando a bola não “morre” nesta primeira ação?

O Fator Tempo passa a influir decisivamente para o sucesso de todas a funções do jogo. Aí é que se diferencia umas de outras equipes, uns de outros jogadores. Por essa entre outras razões, os jogadores devem ser estimulados a adquirirem Discernimento Tático Individual. E como adquiri-lo?

O Treinador deve compartilhar com seus atletas todos os raciocínios pelos quais se baseia no processo de construção da equipe. Desde a iniciação, continuando nas categorias de base e na sequência nas equipes de alta competitividades. Vejamos em relação ao Bloqueio.


Na Preparação Física ele deve dizer aos seus atletas, por exemplo, você está treinando tais, tais e tais valências tendo vista adquirir/melhorar:

- sua velocidade de deslocamento;

- sua impulsão:

- seu equilíbrio do corpo no ar;

- etc.

De maneira que o atleta faça a atividade sabendo os porquês, e não fazendo por fazer, como autômatos. O interesse e a motivação, não tenho dúvida, serão muito maiores. E o alcance dos objetivos será consequência natural.


Na Preparação Técnica Individual, mencionar a importância da boa execução. Por exemplo:

- a qualidade do salto;

- o equilíbrio do corpo no ar;

- o porquê dos espaços do corpo em relação à rede e dos braços em relação ao bordo superior da rede,

- etc.

 

Na Preparação Estratégica/Tática, enumerar os itens que são importantes para o desempenho de suas atribuições. Por exemplo:

- a compreensão da estratégia defensiva, como todo, de sua própria equipe;

- o conhecimento das estratégias ofensivas de todas as equipes adversárias que seu time irá enfrentar no campeonato;

- a familiarização com sua área de atuação, do bloqueador central, dos bloqueadores das extremidades;

- a consolidação dos procedimentos indispensáveis para bom aproveitamento em sua função;

- o conhecimento das características dos atacantes adversários;

- os elementos essenciais para decisões importantes, tais como, o momento de saltar, o ponto de referência a ser adotado, o espaço a ser ocupado, a relação com os jogadores de defesa;

- etc.

No Treinamento Global deve estabelecer os objetivos a serem alcançados, obviamente, de acordo com as capacidades dos jogadores do seu elenco e das características dos seus adversários. Por exemplo.


Percentual de sucesso a ser obtido nas atuações:

- do Sistema Ofensivo, contribuem, bom rendimento na recepção, no levantamento e no ataque;

- do Sistema Defensivo, contribuem, bom rendimento no saque, no bloqueio e na defesa;

- das Transições entre o Sistemas, contribuem, a qualidade na execução de todas as funções do jogo.

 

Nota

Nos Campeonatos Internacionais, promovidos pela FIVB, e nos Nacionais, de vários países, inclusive a Superliga no Brasil, as estatísticas estão postadas em seus sítios na internet. Portanto, disponíveis a todos.

 

Superestimar ou subestimar as dos seus jogadores e/ou as dos seus adversários constitui equívoco, muitas vezes, fatal. Ou seja: o de não alcançar os objetivos propostos, isto é, não conseguir colocar a equipe à altura do nível de competitividade requerido pela competição.

Considerações feitas, vamos raciocinar juntos.

O Treinador fornece todas as informações sobre a equipe adversária.

- as combinações de ataque, em cada um dos seis rodízios;

- as características dos atacantes adversários;

- as alternativas táticas.

 

Prepara sua equipe e instrui todos os seus bloqueadores levando-se em conta os elementos mencionados nas informações antes dos jogos. Vamos considerar dois momentos distintos.


A equipe com o Saque.

Antes do saque partir, todos os jogadores, bloqueadores e defensores, sabem a estratégia de ataque de cada rodízio da equipe adversária. Há tempo para que todos se concentrem e se organizem mentalmente sobre os procedimentos estabelecidos por ocasião das instruções do treinador.


É de se esperar que não haja erro, pelo menos por inobservância dos procedimentos estabelecidos. É o princípio para o sucesso do sistema defensivo, ou seja, a marcação do ponto ou a conquista da posse da bola e, na sequência, a execução do contra-ataque.

Agora vejamos:

- 6 rodízios, em cada qual, pelo menos uma combinação de ataque;

- em cada combinação, equipes de alta competitividade, acionam até 4 atacantes;

- atacantes têm características diferentes e podem ter soluções diferentes em cada ataque; atacar para diagonal, atacar para a paralela, "largar", "explorar" o bloqueio, etc.

 

Logo, é elevada a multiplicidade de alternativas de ataque. Isso, sem contarmos as alternativas táticas. As equipes, de modo geral, possuem uma combinação estrategicamente construída e, pelo menos uma, como alternativa tática.

O Treinador prepara sua equipe para tentar bom aproveitamento/rendimento com seu Sistema Defensivo. Recapitulando, antes da bola entrar em jogo com o Saque.
Com a bola em jogo, ocorrem as Transições entre os Sistemas. As equipes também preparam alternativas, muitas vezes, diferentes para os contra-ataques. O que representa um número ainda maior de elementos a serem considerados pelos bloqueadores.

Diante de tantas alternativas, o jogador de voleibol tem procurar entender tudo relacionado à modalidade. Sobretudo a parte estratégica do jogo. A meu ver, é fator para evolução possível no voleibol atual. Possível, por que? Como foi mencionado, é pouco provável que treinadores e atletas encontrem metodologia que melhore - de modo significativo - os elevados níveis de condicionamento físico e de capacidade técnica.

 

Conclusão.

Diante de todo o exposto, tenho convicção de que o Discernimento Tático Individual que todos os jogadores devem ter é item importante com vistas a evolução de uma equipe. Sobretudo nas de alta competitividade. Atualmente, vejamos alguns elementos:


- grandes jogadores do mundo têm pouco a evoluir em condicionamento físico, em suas técnicas individuais;

- claro que treinam muito buscando a máxima eficiência em todas as funções do jogo, a perfeição;

- a todo momento surgem novos e talentosos jogadores;

- os treinadores estudam cada vez mais e utilizam todo meio de informação, hoje globalizada, tendo em vista o aperfeiçoamento de seus trabalhos;

- a informática tem ajudado muito o estudo de sua própria equipe e de equipes adversárias.

 

Portanto, toda a atividade do desporto, em geral, e do voleibol, em particular, está interligada. Dispõem de equipe com profissionais altamente especializados, que atuam desde o Planejamento até a última bola que toca o chão, no último jogo do campeonato. É uma série enorme de segmentos que se somam e influenciam o produto final, a performance da equipe.

Agora, o que realmente decide é a atuação dos jogadores. Considerando tudo o que foi mencionado nesta apresentação, em que segmento é possível haver evolução? É assunto a ser largamente estudado.

Para terminar, uma história relacionada ao assunto.

Em 1985, o Presidente da Federação Internacional de Volleyball (FIVB) reuniu todos os treinadores das equipes participantes da Copa do Mundo. Queria opiniões sobre a permissão dos treinadores poderem falar aos atletas no banco de reservas (até então prerrogativa proibida).

Um a um, todos foram a favor. Menos um. O treinador da China, na ocasião o melhor time. O melhor time que vi em toda minha vida.

Argumentou que o treinador falando inibia a iniciativa das atletas em tomar decisões próprias. Opinião importante e se coaduna com o teor dessa apresentação.


Depois, conclui com uma brincadeira: “também não falo porque não tenho o vozeirão do Jorjão”. Incontinenti, respondi: “se eu tivesse o seu time, também ficaria caladinho ”.

 

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